{"id":16,"date":"2021-08-01T15:00:22","date_gmt":"2021-08-01T15:00:22","guid":{"rendered":"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/?p=16"},"modified":"2021-09-29T23:47:02","modified_gmt":"2021-09-29T23:47:02","slug":"joao-guimaraes-rosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/blog\/biografias\/joao-guimaraes-rosa\/","title":{"rendered":"Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa foi um dos mais importantes escritores brasileiros do s\u00e9culo XX,\u00a0 destaque da terceira fase do modernismo, produzindo contos, poemas, novelas e romances que inovaram ao romper com as t\u00e9cnicas tradicionais da literatura da \u00e9poca. O escritor construiu novos voc\u00e1bulos e express\u00f5es, reinventando a L\u00edngua Portuguesa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 14pt;\">Biografia<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa nasceu na cidade de Cordisburgo, Minas Gerais, em 27 de junho de 1908, sendo o primeiro dos seis filhos de Francisca Guimar\u00e3es Rosa (antes, Francisca Lima Guimar\u00e3es), conhecida como &#8220;Dona Chiquitinha&#8221; e de Florduardo Pinto Rosa, mais conhecido como &#8220;Seu Ful\u00f4&#8221;.<\/p>\n<figure id=\"attachment_44\" aria-describedby=\"caption-attachment-44\" style=\"width: 258px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-44\" src=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/20080424-guimaraes1.jpg\" alt=\"\" width=\"258\" height=\"380\" srcset=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/20080424-guimaraes1.jpg 258w, https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/20080424-guimaraes1-204x300.jpg 204w\" sizes=\"(max-width: 258px) 100vw, 258px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-44\" class=\"wp-caption-text\"><em>Guimar\u00e3es Rosa jovem. (Foto: Acervo do Museu Casa Guimar\u00e3es Rosa)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Filho de comerciante, residia quando crian\u00e7a na rua principal da cidade, hoje denominada Avenida Padre Jo\u00e3o, bem em frente a esta\u00e7\u00e3o da Estrada de Ferro Central do Brasil. No local hoje encontra-se \u00e0 visita\u00e7\u00e3o o Museu Casa Guimar\u00e3es Rosa, que resgata a hist\u00f3ria do escritor, tendo \u00e0 mostra objetos pessoais, livros, os c\u00f4modos todos montados \u00e0 car\u00e1ter, incluindo a &#8220;venda&#8221; de &#8220;Seu Ful\u00f4&#8221;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 14pt;\"><strong>Estudos<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jo\u00e3ozito, como era conhecido, iniciou seus estudos em Cordisburgo, na denominada &#8220;Escolas Reunidas&#8221;, que at\u00e9 ent\u00e3o era administrada por freiras e possu\u00eda alas masculina e feminina. Hoje \u00e9 denominada Escola Estadual Mestre Candinho. Foi com C\u00e2ndido Pereira de Souza, o pr\u00f3prio Mestre Candinho, que ele aprendeu as primeiras letras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sempre apaixonado pelas l\u00ednguas, ainda com menos de 7 anos come\u00e7ou a estudar franc\u00eas por conta pr\u00f3pria. Com a chegada de Frei Can\u00edsio Zoetmulder, frade franciscano holand\u00eas, em 1917, pode iniciar-se no holand\u00eas e prosseguir os estudos de franc\u00eas, agora sobre a supervis\u00e3o daquele frade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No ano de 1918, mudou-se para Belo Horizonte, para morar com seus av\u00f3s, terminando o curso prim\u00e1rio no Grupo Escolar Afonso Pena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Iniciou o curso secund\u00e1rio no Col\u00e9gio Santo Ant\u00f4nio, em S\u00e3o Jo\u00e3o del Rei, em regime de internato, permanecendo por curto per\u00edodo, n\u00e3o adaptando-se ao local e a comida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voltando a Belo Horizonte, foi matriculado no Col\u00e9gio Arnaldo, institui\u00e7\u00e3o fundada por padres alem\u00e3es, iniciando o estudo do idioma alem\u00e3o, aprendendo em curto espa\u00e7o de tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda neste per\u00edodo, demonstra sua paix\u00e3o por Cordisburgo, sua terra natal. Contava os dias para que pudesse pegar o trem e ir passar as f\u00e9rias na cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1925, com apenas 16 anos, inicia os estudos na Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 14pt;\"><strong>In\u00edcio nas Letras<\/strong><\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_45\" aria-describedby=\"caption-attachment-45\" style=\"width: 302px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-45\" src=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/guimaraes_rosa.jpg\" alt=\"\" width=\"302\" height=\"416\" srcset=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/guimaraes_rosa.jpg 302w, https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/guimaraes_rosa-218x300.jpg 218w\" sizes=\"(max-width: 302px) 100vw, 302px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-45\" class=\"wp-caption-text\"><em>Guimar\u00e3es Rosa em 1930. (Foto: Acervo Nova Fronteira)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Iniciou nas letras no ano de 1929, quando escreveu quatro contos: Ca\u00e7ador de camur\u00e7as, Chronos Kai Anagke (t\u00edtulo grego, significando Tempo e Destino), O mist\u00e9rio de Highmore Hall e Makin\u00e9, para um concurso promovido pela revista O Cruzeiro. Todos os contos foram premiados e publicados, sendo premiado com a recompensa de cem contos de r\u00e9is.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 14pt;\">Medicina e For\u00e7a P\u00fablica<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos 22 anos, em 27 de junho de 1930, casa-se com L\u00edgia Cabral Penna, ent\u00e3o com 16 anos, que lhe d\u00e1 duas filhas: Vilma e Agnes. Dura pouco seu primeiro casamento, desfazendo-se uns poucos anos depois. Neste mesmo ano, forma-se em Medicina, sendo o orador da turma, escolhido por aclama\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<figure id=\"attachment_49\" aria-describedby=\"caption-attachment-49\" style=\"width: 302px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-49\" src=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/Guimaraes-Rosa-e-Wilma.jpg\" alt=\"\" width=\"302\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/Guimaraes-Rosa-e-Wilma.jpg 588w, https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/Guimaraes-Rosa-e-Wilma-226x300.jpg 226w\" sizes=\"(max-width: 302px) 100vw, 302px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-49\" class=\"wp-caption-text\"><em>Guimar\u00e3es Rosa e a filha Vilma Guimar\u00e3es (Foto: Templo Cultural Delfos)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi exercer a profiss\u00e3o em Itaguara, ent\u00e3o munic\u00edpio de Ita\u00fana, onde permanece por cerca de dois anos. Trabalhou no atendimento da popula\u00e7\u00e3o local, relacionando-se na ajuda \u00e0 comunidade, sobretudo aos pobres e marginalizados. Devido a precariedade do local, que n\u00e3o possu\u00eda sequer energia el\u00e9trica, acabou por afastar-se da medicina ali.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1932, durante a Revolu\u00e7\u00e3o Constitucionalista, serviu voluntariamente como m\u00e9dico volunt\u00e1rio da For\u00e7a P\u00fablica, efetivando-se, posteriormente, por concurso. No ano seguinte, passou a exercer a fun\u00e7\u00e3o de Oficial M\u00e9dico do 9\u00ba Batalh\u00e3o de Infantaria de Barbacena. Neste per\u00edodo, dedicou ao estudo de idiomas e realizar pesquisas nos arquivos do quartel, sobretudo sobre o jaguncismo da regi\u00e3o do Rio S\u00e3o Francisco.<\/p>\n<figure id=\"attachment_46\" aria-describedby=\"caption-attachment-46\" style=\"width: 302px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-46\" src=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/guiamraes_forcapublica.jpeg\" alt=\"\" width=\"302\" height=\"431\" srcset=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/guiamraes_forcapublica.jpeg 717w, https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/guiamraes_forcapublica-210x300.jpeg 210w\" sizes=\"(max-width: 302px) 100vw, 302px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-46\" class=\"wp-caption-text\"><em>Guimar\u00e3es Rosa, nos tempos de For\u00e7a P\u00fablica, pelo olhar do Coronel Alc\u00e2ntara, (Foto: Acervo do 9\u00ba Batalh\u00e3o da Pol\u00edcia Militar de Minas Gerais \/ Not\u00edcias Gerais)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste per\u00edodo j\u00e1 era clara a falta de &#8220;voca\u00e7\u00e3o&#8221; para o exerc\u00edcio da Medicina, confidenciando ao amigo Dr. Pedro Moreira Barbosa, em carta datada de 20 de mar\u00e7o de 1934:<\/p>\n<blockquote><p><em>N\u00e3o nasci para isso, penso. N\u00e3o \u00e9 esta, digo como dizia Don Juan, sempre &#8216;apr\u00e8s avoir couch\u00e9 avec&#8230;\u2019 Primeiramente, repugna-me qualquer trabalho material s\u00f3 posso agir satisfeito no terreno das teorias, dos textos, do racioc\u00ednio puro, dos subjetivismos. Sou um jogador de xadrez nunca pude, por exemplo, com o bilhar ou com o futebol.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O escritor, com seu not\u00e1vel conhecimento de l\u00edngua estrangeira, entusiasmou-se com a possibilidade de ser selecionado para o Itamaraty, seguindo em 1934 para o Rio de Janeiro e prestando concurso para o Minist\u00e9rio do Exterior, obtendo o segundo lugar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 14pt;\">Premia\u00e7\u00e3o com Poemas<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1936, a colet\u00e2nea de poemas Magma recebe o pr\u00eamio de poesia da Academia Brasileira de Letras, mas n\u00e3o realizou a publica\u00e7\u00e3o da obra. No ano seguinte, utilizando-se do pseud\u00f4nimo &#8220;Viator&#8221;, concorre ao pr\u00eamio Humberto de Campos, com o volume intitulado Contos, perdendo o primeiro lugar para Lu\u00eds Jardim. O volume s\u00f3 viria a ser publicado, ap\u00f3s revis\u00e3o do autor, em 1946 atrav\u00e9s do livro <em>Sagarana<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 14pt;\">Vida Diplom\u00e1tica (I)<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No ano de 1938, Guimar\u00e3es Rosa \u00e9 nomeado C\u00f4nsul Adjunto em Hamburgo, e segue para a Europa. L\u00e1 conhece Aracy Moebius de Carvalho, ent\u00e3o chefe da Se\u00e7\u00e3o de Passaportes do consulado brasileiro, que viria a ser sua segunda mulher.<\/p>\n<figure id=\"attachment_50\" aria-describedby=\"caption-attachment-50\" style=\"width: 510px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-50\" src=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/Joao-Rosa-e-Ara-caminhando-em-Hamburgo.jpg\" alt=\"\" width=\"510\" height=\"341\" srcset=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/Joao-Rosa-e-Ara-caminhando-em-Hamburgo.jpg 510w, https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/Joao-Rosa-e-Ara-caminhando-em-Hamburgo-300x201.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 510px) 100vw, 510px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-50\" class=\"wp-caption-text\">Aracy e Guimar\u00e3es Rosa em Hamburgo (Foto: Acervo Fam\u00edlia Tess)<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era \u00e9poca do nazismo alem\u00e3o, e embora consciente dos perigos que enfrentava, Aracy burlou as regras do governo brasileiro, emitindo vistos para judeus entrarem no Brasil, mesmo com o vigor da Circular Secreta 1127, documento que restringia a entrada de judeus no pa\u00eds. O autor ajudou a futura esposa na miss\u00e3o, salvando milhares de vidas. Em reconhecimento a essa atitude, em Abril de 1985, foram homenageados em Israel: o nome do casal foi dado a um bosque que fica ao longo das encostas que d\u00e3o acesso a Jerusal\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante a guerra, por v\u00e1rias vezes escapou da morte; ao voltar para casa, uma noite, s\u00f3 encontrou escombros. A supersti\u00e7\u00e3o e o misticismo acompanhariam o escritor por toda a vida.<\/p>\n<figure id=\"attachment_51\" aria-describedby=\"caption-attachment-51\" style=\"width: 640px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-51 size-full\" src=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/grosa-consul.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"426\" srcset=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/grosa-consul.jpg 640w, https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/grosa-consul-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-51\" class=\"wp-caption-text\"><em>Guimar\u00e3es Rosa nos tempos de C\u00f4nsul na Alemanha (Foto: Blog das Letras)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Permanece no pa\u00eds at\u00e9 1942, quando o Brasil rompe com a Alemanha, sendo retido por quatro meses na cidade de Baden-Baden, junto a outros brasileiros, sendo libertados em troca de diplomatas alem\u00e3es.<\/p>\n<blockquote><p><em>O Diplomata \u00e9 um sonhador que acredita poder remediar o que os pol\u00edticos estragam.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Retornando ao Brasil, ap\u00f3s r\u00e1pida passagem pelo Rio de Janeiro, o escritor segue para Bogot\u00e1, como Secret\u00e1rio da Embaixada, l\u00e1 permanecendo at\u00e9 1944.<\/p>\n<figure id=\"attachment_52\" aria-describedby=\"caption-attachment-52\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-52\" src=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/Consulado-Brasileiro-em-Hamburgo.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"334\" srcset=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/Consulado-Brasileiro-em-Hamburgo.jpg 450w, https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/Consulado-Brasileiro-em-Hamburgo-300x223.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-52\" class=\"wp-caption-text\">Consulado brasileiro em Hamburgo. (Foto: Acervo Fam\u00edlia Tess)<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em dezembro de 1945, depois de longa aus\u00eancia retorna ao Brasil, dirigindo-se inicialmente, \u00e0 Fazenda Tr\u00eas Barras, ber\u00e7o da fam\u00edlia, e depois, \u00e0 cavalo, rumou para Cordisburgo, onde se hospedou no tradicional Argentina Hotel, ao lado de sua antiga resid\u00eancia. O fato demonstra a conex\u00e3o e sentimento que tinha com a cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1946, Guimar\u00e3es Rosa \u00e9 nomeado chefe-de-gabinete do ministro Jo\u00e3o Neves da Fontoura e vai a Paris como membro da delega\u00e7\u00e3o \u00e0 Confer\u00eancia de Paz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 14pt;\">Sagarana<\/span><\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_53\" aria-describedby=\"caption-attachment-53\" style=\"width: 302px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-53\" src=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/343378.jpg\" alt=\"\" width=\"302\" height=\"393\" srcset=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/343378.jpg 461w, https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/343378-231x300.jpg 231w\" sizes=\"(max-width: 302px) 100vw, 302px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-53\" class=\"wp-caption-text\">(Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Internet)<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sagarana \u00e9 o primeiro livre publicado pelo escritor. Este \u00e9 o mesmo livro que participou do Pr\u00eamio Humberto de Campos, em 1937, conquistando o segundo lugar. Ap\u00f3s refazer a obra, e reduzir de 500 para 300 p\u00e1ginas realizou sua publica\u00e7\u00e3o em 1946.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A obra garantiu-lhe um privilegiado lugar de destaque no panorama da literatura brasileira, pela linguagem inovadora, pela singular estrutura narrativa e a riqueza de simbologia dos seus contos. Com ele, o regionalismo estava novamente em pauta, mas com um novo significado e assumindo a caracter\u00edstica de experi\u00eancia est\u00e9tica universal: retrata a paisagem mineira, a vida das fazendas, dos vaqueiros e dos criadores de gado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro conto do livro intitula-se \u201cO burrinho pedr\u00eas\u201d, inspirado em um fato acontecido na regi\u00e3o em que Guimar\u00e3es Rosa nasceu: o afogamento de um grupo de vaqueiros em um c\u00f3rrego cheio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No segundo conto, \u201cA volta do marido pr\u00f3digo\u201d, narra-se a hist\u00f3ria de um mulato que abandona o trabalho, negocia a pr\u00f3pria mulher e vai para o Rio de Janeiro. Em \u201cSarapalha\u201d, terceiro conto do livro, dois primos disputam a mesma mulher em uma regi\u00e3o assolada pela mal\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No quarto conto, intitulado \u201cDuelo\u201d, tem-se a hist\u00f3ria de Tur\u00edbio, personagem que surpreende a mulher, Silvana, com o ex-militar Cassiano. Por engano, por\u00e9m, ele mata o irm\u00e3o desse amante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cMinha gente\u201d \u00e9 o t\u00edtulo do quinto conto, em que se narra, em primeira pessoa, uma hist\u00f3ria de amor contextualizada em um cen\u00e1rio movimentado pelo clima das elei\u00e7\u00f5es. No sexto conto, intitulado \u201cS\u00e3o Marcos\u201d, narra-se uma travessia pelo sert\u00e3o, marcada pela descri\u00e7\u00e3o do cen\u00e1rio t\u00edpico dessa paisagem brasileira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em \u201cCorpo fechado\u201d, s\u00e9timo conto de Sagarana, narra-se a hist\u00f3ria de Manuel Ful\u00f4, que ama mais sua mula de estima\u00e7\u00e3o do que a sua noiva, cobi\u00e7ada por um valent\u00e3o. Para salvar a noiva das garras do homem que a deseja, Manuel Ful\u00f4 entrega a mula a um feiticeiro para fechar o seu corpo e enfrentar com sucesso seu advers\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No oitavo conto, intitulado \u201cConversa de bois\u201d, o leitor acompanha, por meio da narra\u00e7\u00e3o, uma viagem de um carro de bois. O inusitado \u00e9 que nesse conto os animais falam e raciocinam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u00faltimo conto do livro, intitulado \u201cHora e vez de Augusto Matraga\u201d, foi considerado pelo pr\u00f3prio autor como o melhor da sele\u00e7\u00e3o de nove contos que comp\u00f5em a obra. O protagonista da narrativa, Augusto Matraga, \u00e9 um homem truculento, poderoso e autorit\u00e1rio, espelho do t\u00edpico homem que det\u00e9m poder nas inst\u00e2ncias governamentais do Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sucesso de cr\u00edtica e p\u00fablico, seu livro de contos recebe o Pr\u00eamio da Sociedade Felipe d&#8217;Oliveira, esgotando-se, no mesmo ano as duas edi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 14pt;\">Vida Diplom\u00e1tica (II)<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Guimar\u00e3es Rosa ainda continuou atuando na vida diplom\u00e1tica ap\u00f3s o sucesso de seu primeiro livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1948, o escritor est\u00e1 novamente em Bogot\u00e1 como Secret\u00e1rio-Geral da delega\u00e7\u00e3o brasileira \u00e0 IX Confer\u00eancia Inter-Americana; durante a realiza\u00e7\u00e3o do evento ocorre o assassinato pol\u00edtico do prestigioso l\u00edder popular Jorge Eli\u00e9cer Gait\u00e1n.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De 1948 a 1950, o escritor encontra-se de novo em Paris, respectivamente como 1\u00ba Secret\u00e1rio e Conselheiro da Embaixada. Em 1951 \u00e9 novamente nomeado Chefe de Gabinete de Jo\u00e3o Neves da Fontoura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 14pt;\">Futebol e o Poema Perdido<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1950, o Clube Atl\u00e9tico Mineiro foi a primeira equipe de futebol de Minas Gerais e uma das primeiras do Brasil a competir no continente europeu, sendo conhecido como &#8220;Campe\u00e3o do Gelo&#8221; por jogar em condi\u00e7\u00f5es adversas de temperatura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O empres\u00e1rio que cuidava da excurs\u00e3o sumiu com todo o dinheiro da arrecada\u00e7\u00e3o, e sem passagens para voltar ao Brasil, nem onde ficar, recorreram \u00e0 Embaixada de Paris.<\/p>\n<figure id=\"attachment_54\" aria-describedby=\"caption-attachment-54\" style=\"width: 600px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-54 size-full\" src=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/guima.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/guima.jpg 600w, https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/guima-300x188.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-54\" class=\"wp-caption-text\"><em>Delega\u00e7\u00e3o atleticana sendo recebida na embaixada de Paris (Foto: Centro Atleticano de Mem\u00f3ria)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro secret\u00e1rio Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa n\u00e3o s\u00f3 os recebeu como se declarou atleticano, realizando um discurso \u00e0 delega\u00e7\u00e3o, onde exaltava a equipe mineira, relatando grande atletas e esquadr\u00f5es e se referindo como &#8220;Nosso Atl\u00e9tico&#8221;. Teria ele escrito tamb\u00e9m um poema em homenagem \u00e0 equipe, perdido desde ent\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo o atleta Vav\u00e1, foi o pr\u00f3prio escritor que tratou de tudo \u2013 desde as reuni\u00f5es at\u00e9 a negocia\u00e7\u00e3o para conseguir, do Governo brasileiro, os bilhetes para o retorno a Belo Horizonte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na despedida, a Embaixada ofereceu uma recep\u00e7\u00e3o em homenagem ao escrete mineiro, com duas atra\u00e7\u00f5es: uma feijoada e uma cantora rec\u00e9m descoberta: Edith Piaf . O evento foi amplamente noticiado pela imprensa francesa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 14pt;\"><strong>Com o Vaqueiro Mariano<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Retorna ao Brasil em 1951. No ano seguinte, faz uma excurs\u00e3o ao Mato Grosso. O resultado \u00e9 uma reportagem po\u00e9tica: Com o vaqueiro Mariano, publicada no Correio da Manh\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O narrador, que se mostra apenas pela voz, relata os dias em que acompanha o Vaqueiro Mariano na sua labuta di\u00e1ria com o gado no pantanal mato-grossense. Ele narra as dificuldades que se apresentam durante a viagem: o desgarrar das vacas bravas, dos bois mansos que se embravecem de uma hora para outra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 14pt;\"><strong>Excurs\u00e3o de 1952<\/strong><\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_59\" aria-describedby=\"caption-attachment-59\" style=\"width: 768px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-59 size-full\" src=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/rosa-capa-1115156_widelg-1.png\" alt=\"\" width=\"768\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/rosa-capa-1115156_widelg-1.png 768w, https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/rosa-capa-1115156_widelg-1-300x176.png 300w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-59\" class=\"wp-caption-text\"><em>(Foto: Aventuras na Hist\u00f3ria\/UOL)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos 44 anos, em Maio de 1952, trocou o terno e a gravata borboleta pela jaqueta e o chap\u00e9u de couro, viajando em busca de inspira\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 estava acostumado com as andan\u00e7as pelo interior mineiro, mas desta vez acompanharia um grupo de tropeiros da fazenda Cirga, propriedade do seu primo Chico Moreira em Tr\u00eas Marias, at\u00e9 a fazenda S\u00e3o Francisco, em Ara\u00e7a\u00ed, passando por sua terra natal Cordisburgo, num percurso de dez dias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A comitiva levaria 300 cabe\u00e7as de boi por 240 quil\u00f4metros de trilha, atravessando pastos, beiras de estradas, casinhas de pau a pique, buritis e discretos cursos d\u00b4\u00e1gua.<\/p>\n<blockquote><p><em>\u201cCreio que ser\u00e1 uma excurs\u00e3o interessante e proveitosa, que irei fazer de cadernos abertos e l\u00e1pis em punho, para anotar tudo o que possa valer, como fornecimento da cor local, pitoresco e exatid\u00e3o documental, que s\u00e3o coisas muito importantes na literatura moderna\u201d, escreve o autor, meses antes, em carta para seu pai.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<figure id=\"attachment_56\" aria-describedby=\"caption-attachment-56\" style=\"width: 622px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-56\" src=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/rosa-1115157.jpg\" alt=\"\" width=\"622\" height=\"414\" srcset=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/rosa-1115157.jpg 622w, https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/rosa-1115157-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 622px) 100vw, 622px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-56\" class=\"wp-caption-text\"><em>(Foto: Aventuras Na Hist\u00f3ria\/UOL)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim como os outros, acompanhava a boiada, tomava banho em c\u00f3rrego, acendia o cigarro num toco de madeira em brasa e pousava no improviso das fazendas, chegando a pernoitar dentro de uma forma de rapadura. Os registros fotogr\u00e1ficos da viagem foram feitos pelo fot\u00f3grafo Eug\u00eanio Silva, da antiga revista O Cruzeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para anotar impress\u00f5es e as hist\u00f3rias que ouvia, Rosa utilizou sete cadernetas, todas preenchidas com observa\u00e7\u00f5es detalhistas sobre a paisagem mineira e seus animais, as cantorias de violas, os nomes de plantas e flores, o significado de h\u00e1bitos, express\u00f5es e o modo de falar dos vaqueiros.<\/p>\n<figure id=\"attachment_57\" aria-describedby=\"caption-attachment-57\" style=\"width: 561px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-57\" src=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/rosa-1115158.jpg\" alt=\"\" width=\"561\" height=\"576\" srcset=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/rosa-1115158.jpg 561w, https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/rosa-1115158-292x300.jpg 292w\" sizes=\"(max-width: 561px) 100vw, 561px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-57\" class=\"wp-caption-text\"><em>Rosa durante o almo\u00e7o com os vaqueiros (Foto: Aventuras na Hist\u00f3ria\/UOL)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando retornou ao Rio de Janeiro, o escritor datilografou todo esse material, separando o conte\u00fado por temas. As anota\u00e7\u00f5es reunidas virariam dois di\u00e1rios, batizados pelo autor de \u201cA Boiada 1\u201d e \u201cA Boiada 2\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em entrevista, Guimar\u00e3es Rosa perguntou ao jornalista Pedro Bloch:<\/p>\n<blockquote><p><em>\u201cVoc\u00ea conhece os meus cadernos, n\u00e3o conhece? Quando eu saio montado num cavalo, por minha Minas Gerais, vou tomando nota de coisas. O caderno fica impregnado de sangue de boi, suor de cavalo, folha machucada. Cada p\u00e1ssaro que voa, cada esp\u00e9cie, tem voo diferente. Quero descobrir o que caracteriza o voo de cada p\u00e1ssaro, em cada momento. N\u00e3o h\u00e1 nada igual neste mundo. N\u00e3o quero palavra, mas coisa, movimento, voo\u201d.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 14pt;\">Vida Diplom\u00e1tica (III)<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1953 torna-se Chefe da Divis\u00e3o de Or\u00e7amento e em 1958 \u00e9 promovido a Ministro de Primeira Classe (cargo correspondente a Embaixador).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 14pt;\">Corpo de Baile<\/span><\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_60\" aria-describedby=\"caption-attachment-60\" style=\"width: 600px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-60\" src=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/856851_1.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"484\" srcset=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/856851_1.jpg 600w, https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/856851_1-300x242.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-60\" class=\"wp-caption-text\">(Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Internet)<\/figcaption><\/figure>\n<p>Em Janeiro de 1956, lan\u00e7a o livro de novelas Corpo de Baile, onde continua a experi\u00eancia iniciada em Sagarana. A obra \u00e9 composta originalmente de dois volumes com sete novelas. Na segunda edi\u00e7\u00e3o, o livro foi publicado em volume \u00fanico e, em edi\u00e7\u00f5es posteriores, o autor dividiu-o em tr\u00eas livros menores.: Manuelz\u00e3o e Miguilim, com as novelas Campo Geral e Uma hist\u00f3ria de amor; No Urubuquaqu\u00e1, no Pinh\u00e9m, com as novelas O recado do morro, Cara-de-bronze e A hist\u00f3ria de L\u00e9lio e Lina e Noites do Sert\u00e3o, com as novelas D\u00e3o-Lalal\u00e3o e Buriti.<\/p>\n<p><em>Campo Geral<\/em> narra a hist\u00f3ria de Miguilim, uma crian\u00e7a de 8 anos de idade que mora no Sert\u00e3o na Mutum, em uma casa simples com seus pais, irm\u00e3os e outros parentes. O tema central da obra \u00e9 o amadurecimento da crian\u00e7a, que passa por uma s\u00e9rie de experi\u00eancias em sua inf\u00e2ncia que ajudam na constru\u00e7\u00e3o do homem que ele se tornar\u00e1 no futuro. Esse crescimento \u00e9 feito por meio de dores, perdas e problemas familiares e personifica um rito de passagem entre a inf\u00e2ncia e a vida adulta.<\/p>\n<p><em>Uma Est\u00f3ria de Amor<\/em> narra os preparativos para uma festa e a pr\u00f3pria festa, idealizada por Manuelz\u00e3o para consagrar uma capela por ele constru\u00edda. A festa e seus preparativos s\u00e3o a base, mas a parte principal da narrativa s\u00e3o os pensamentos, sentimentos e lembran\u00e7as de um velho vaqueiro que v\u00ea com preocupa\u00e7\u00e3o a chegada do fim.<\/p>\n<p>O <em>Recado do Morro<\/em> descreve uma viagem pelo sert\u00e3o, da regi\u00e3o central de Minas at\u00e9 o Rio S\u00e3o Francisco. Caminham em tropa um naturalista estrangeiro, um religioso e um letrado. \u00c0 frente deles, dois homens do interior mineiro, conhecedores da regi\u00e3o e do sert\u00e3o, servem como guias. A trama ir\u00e1 opor os dois homens simples, por meio de uma emboscada de morte, que trar\u00e1 \u00e0quele espa\u00e7o uma nova configura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Cara-de-bronze \u00e9 a hist\u00f3ria de um rico fazendeiro, que vive fechado em sua propriedade, rodeado de vaqueiros, que s\u00e3o seu \u00fanico canal de comunica\u00e7\u00e3o com o mundo. Ele se esconde, porque pensa ter assassinado o pr\u00f3prio pai, mas descobre quarenta anos depois que o pai tinha ca\u00eddo, porque estava sob o efeito do \u00e1lcool e n\u00e3o atingido pela bala de seu rev\u00f3lver. Sozinho, perto da morte, pede a Grivo, seu mais fiel vaqueiro que v\u00e1 procurar numa longa viagem a ess\u00eancia da vida, \u201co quem das coisas\u201d. O que ele queria era receber do Grivo os relatos de seu tempo perdido.<\/p>\n<p>Em <em>A Est\u00f3ria de L\u00e9lio e Lina<\/em>, um vaqueiro ansiando por uma mulher chega \u00e0 Fazenda Pinh\u00e9m, e com a senhora, dona Rosalina, L\u00e9lio estabelece uma sincera e profunda amizade, confessando suas paix\u00f5es, L\u00e9lio recebe de Lina respostas a perguntas ainda n\u00e3o formuladas. O vaqueiro resgata o antigo desejo por uma mo\u00e7a ainda distante e parte novamente \u00e0 sua busca, integrando interiormente um ideal a sua pr\u00f3pria realidade.<\/p>\n<p>Em <em>D\u00e3o-Lalal\u00e3o<\/em>, Soropita e Doralda vivem e experimentam um amor carnal, perfeito, esponsal, que lhes permite alcan\u00e7ar a perfei\u00e7\u00e3o do desejo. O desejo n\u00e3o \u00e9 desrito como obst\u00e1culo ou limite \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o da alma, nem como separa\u00e7\u00e3o entre o corpo impuro e o esp\u00edrito afastado do corpo, mas como saudade \u00faltima de bem, de satisfa\u00e7\u00e3o, de radicaliza\u00e7\u00e3o da realidade.<\/p>\n<p><em>Buriti<\/em> narra a hist\u00f3ria de Miguel, adulto, formado em medicina veterin\u00e1ria, que, depois de morar muitos anos na cidade, retorna \u00e0 fazenda \u201cBuriti Bom\u201d para trabalhar. O dono da fazenda era um homem rico, machista e dominador. Ele era pai de Gl\u00f3ria e sogro de Lalinha, mo\u00e7a citadina, que se v\u00ea prisioneira do sert\u00e3o. A sexualidade das duas se agu\u00e7a na medida em que elas se encontram com Miguel nos campos rodeados de buritizais. O sert\u00e3o faz desabrochar os desejos mais ocultos das personagens. O Buriti se torna s\u00edmbolo do desejo e do amor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: 14pt;\">Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/span><\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_61\" aria-describedby=\"caption-attachment-61\" style=\"width: 1000px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-61\" src=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/Guimaraes_Rosa_Primeiras_edicoes_de_Grande_Sertao_Veredas_752369.jpg\" alt=\"\" width=\"1000\" height=\"536\" srcset=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/Guimaraes_Rosa_Primeiras_edicoes_de_Grande_Sertao_Veredas_752369.jpg 1000w, https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/Guimaraes_Rosa_Primeiras_edicoes_de_Grande_Sertao_Veredas_752369-300x161.jpg 300w, https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/Guimaraes_Rosa_Primeiras_edicoes_de_Grande_Sertao_Veredas_752369-768x412.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-61\" class=\"wp-caption-text\"><em>(Foto: Obras de Arte)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Grande Sert\u00e3o: Veredas \u00e9 o \u00fanico romance escrito por Guimar\u00e3es Rosa e um dos mais importantes textos da literatura brasileira. A obra \u00e9 elogiada pela linguagem e pela originalidade. Lan\u00e7ado em Maio de 1956, \u00e9 considerada uma das mais significativas obras da literatura brasileira. Chama aten\u00e7\u00e3o por sua dimens\u00e3o \u2013 mais de 600 p\u00e1ginas \u2013 e pela aus\u00eancia de cap\u00edtulos. Por ser uma narrativa onde a experi\u00eancia de vida e a experi\u00eancia de texto se fundem numa obra fascinante, sua leitura e interpreta\u00e7\u00e3o constituem um constante desafio para os leitores.<\/p>\n<p>O texto foi traduzido para dezenas de l\u00ednguas e recebeu diversos pr\u00eamios como o Machado de Assis, do Instituto Nacional do Livro; o Carmen Dolores Barbosa, de S\u00e3o Paulo; e o Paula Brito, do Rio de Janeiro. A publica\u00e7\u00e3o faz com que Guimar\u00e3es Rosa seja considerado uma figura singular no panorama da literatura moderna, tornando-se um &#8220;caso&#8221; nacional. Ele encabe\u00e7a a lista tr\u00edplice, composta ainda por Clarice Lispector e Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto, como os melhores romancistas da terceira gera\u00e7\u00e3o modernista brasileira.<\/p>\n<blockquote><p><em>\u201cO senhor&#8230; Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, \u00e9 isto: que as pessoas n\u00e3o est\u00e3o sempre iguais, ainda n\u00e3o foram terminadas &#8211; mas que elas v\u00e3o sempre mudando. Afinam ou desafinam.\u201d<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Riobaldo \u00e9 o protagonista do romance, o personagem-narrador que apresenta um relato sobre sua vida, desde seus medos, amores, trai\u00e7\u00f5es, dentre outros. De tal maneira, faz uma autorreflex\u00e3o sobre sua vida ao descrever al\u00e9m dos acontecimentos, a paisagem do sert\u00e3o, a um doutor que recentemente chegou na fazenda em que vive. Com a morte de sua m\u00e3e, passou a viver com seu padrinho, Selorico Mendes, na fazenda S\u00e3o Greg\u00f3rio; mais tarde ele descobrir\u00e1 que Selorico \u00e9 seu verdadeiro pai. Por conseguinte, na fazenda conhece o bando de jagun\u00e7os de Joca Ramiro. Mais adiante, conhece Reinaldo, jagun\u00e7o do bando, que mais tarde revela ser Diadorim, seu grande amor.<\/p>\n<blockquote><p><em>\u201cO diabo existe e n\u00e3o existe. Dou o dito. Abren\u00fancio. Essas melancolias. O senhor v\u00ea: existe cachoeira; e pois? Mas cachoeira \u00e9 barranco de ch\u00e3o, e \u00e1gua caindo por ele, retombando; o senhor consome essa \u00e1gua, ou desfaz o barranco, sobra cachoeira alguma? Viver \u00e9 neg\u00f3cio muito perigoso&#8230;\u201d<br \/>\n<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p><em>\u201cViver \u00e9 muito perigoso&#8230; Querer o bem com demais for\u00e7a, de incerto jeito, pode j\u00e1 estar sendo se querendo o mal, por principiar. Esses homens! Todos puxavam o mundo para si, para o concertar consertado. Mas cada um s\u00f3 v\u00ea e entende as coisas dum seu modo.\u201d<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Riobaldo foca sobretudo, no seu amor imposs\u00edvel, Diadorim, e na exist\u00eancia de Deus e do Diabo. Por meio de uma narrativa n\u00e3o linear, ou seja, labir\u00edntica e espont\u00e2nea, \u00e9 narrado as divaga\u00e7\u00f5es de Riobaldo, que descreve as personagens que comp\u00f5em a obra e ainda, as lutas entre os bandos de jagun\u00e7os, o conflito com o bando de Z\u00e9 Bebelo e a morte de Joca Ramiro.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cCom Deus existindo, tudo d\u00e1 esperan\u00e7a: sempre um milagre \u00e9 poss\u00edvel, o mundo se resolve. Mas, se n\u00e3o tem Deus, h\u00e1-de a gente perdidos no vaivem, e a vida \u00e9 burra. \u00c9 o aberto perigo das grandes e pequenas horas, n\u00e3o se podendo facilitar \u2013 \u00e9 todos contra os acasos. Tendo Deus, \u00e9 menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim d\u00e1 certo. Mas, se n\u00e3o tem Deus, ent\u00e3o, a gente n\u00e3o tem licen\u00e7a de coisa nenhuma! Porque existe dor.\u201d<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Em maio de 2002, o Clube do Livro da Noruega, entidade que congrega editores noruegueses, incluiu Grande Sert\u00e3o: Veredas em sua lista dos cem melhores livros de todos os tempos &#8211; \u00fanico brasileiro entre 100 escritores de 54 pa\u00edses.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cFui fogo, depois de ser cinza. Ah, algum, isto \u00e9 que \u00e9, a gente tem de vassalar. Olhe: Deus come escondido, e o diabo sai por toda parte lambendo o prato&#8230;\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>A grandiosidade de Grande Sert\u00e3o: Veredas pode ser exemplificada pelas interpreta\u00e7\u00f5es, que a abordam sob os mais variados pontos de vista, sem jamais deixar de ressaltar a capacidade e a confian\u00e7a do autor ao ser inventivo. Extremamente erudito, Rosa incorporou em sua obra aspectos das mais diferentes culturas. Disse uma vez que <em>&#8220;para estas duas vidas [viver e escrever], um l\u00e9xico s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 suficiente&#8221;<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: 14pt;\">Problemas de Sa\u00fade<\/span><\/strong><\/p>\n<p>A partir de 1958, o autor come\u00e7a a apresentar problemas de sa\u00fade e estes seriam, na verdade, o pren\u00fancio do fim pr\u00f3ximo, tanto mais quanto, al\u00e9m da hipertens\u00e3o arterial, o paciente reunia outros fatores de risco cardiovascular como excesso de peso, vida sedent\u00e1ria e, particularmente, o tabagismo. Era um tabagista contumaz e embora afirme ter abandonado o h\u00e1bito, em carta dirigida ao amigo Paulo Dantas em dezembro de 1957, quando recebia do governador Israel Pinheiro a Medalha da Inconfid\u00eancia, aparece com um cigarro na m\u00e3o esquerda. A prop\u00f3sito, na referida carta, o escritor chega mesmo a admitir, explicitamente, sua depend\u00eancia da nicotina:<\/p>\n<blockquote><p>&#8230; tamb\u00e9m estive mesmo doente, com apertos de alergia nas vias respirat\u00f3rias; da\u00ed, tive de deixar de fumar (coisa tenebrosa!) e, at\u00e9 hoje (cabo de 34 dias!), a falta de fumar me bota vazio, vago, incapaz de escrever cartas, s\u00f3 no inerte letargo \u00e1rido dessas fases de desintoxica\u00e7\u00e3o. Oh coisa feroz. Enfim, hoje, por causa do Natal chegando e de mais mil-e-tantos motivos, aqui estou eu, her\u00f3ico e pujante, desafiando a fome-e-sede tab\u00e1gica das pobrezinhas das c\u00e9lulas cerebrais. N\u00e3o repare.<\/p><\/blockquote>\n<p>Coincidindo com os dist\u00farbios cardiovasculares que se evidenciaram a partir de 1958, Guimar\u00e3es Rosa parece ter acrescentado a suas leituras espirituais publica\u00e7\u00f5es e textos relativos \u00e0 Ci\u00eancia Crist\u00e3 (Christian Science), seita criada nos Estados Unidos em 1879 por Mrs. Mary Baker Eddy e que afirmava a primazia do esp\u00edrito sobre a mat\u00e9ria , negando categoricamente a exist\u00eancia do pecado, dos sentimentos negativos em geral, da doen\u00e7a e da morte.<\/p>\n<p>Em 1958, Guimar\u00e3es Rosa viaja para Bras\u00edlia, capital em constru\u00e7\u00e3o, e escreve para os pais:<\/p>\n<blockquote><p>Em come\u00e7o de junho estive em Bras\u00edlia, pela segunda vez l\u00e1 passei uns dias. O clima da nova capital \u00e9 simplesmente delicioso, tanto no inverno quanto no ver\u00e3o. E os trabalhos de constru\u00e7\u00e3o se adiantam num ritmo e entusiasmo inacredit\u00e1veis: parece coisa de russos ou de norte-americanos&#8221;&#8230; &#8220;Mas eu acordava cada manh\u00e3 para assistir ao nascer do sol e ver um enorme tucano colorido, bel\u00edssimo, que vinha, pelo rel\u00f3gio, \u00e0s 6 hs 15, comer frutinhas, na copa da alta \u00e1rvore pegada \u00e0 casa, uma tucaneira, como por l\u00e1 dizem. As chegadas e sa\u00eddas desse tucano foram uma das cenas mais bonitas e inesquec\u00edveis de minha vida.<\/p><\/blockquote>\n<figure id=\"attachment_47\" aria-describedby=\"caption-attachment-47\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-47\" src=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/p006dz021.png\" alt=\"\" width=\"560\" height=\"350\" srcset=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/p006dz021.png 560w, https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/p006dz021-300x188.png 300w\" sizes=\"(max-width: 560px) 100vw, 560px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-47\" class=\"wp-caption-text\"><em>Guimar\u00e3es Rosa, chefe da Divis\u00e3o de Fronteiras do Itamaraty (Foto: O Bar\u00e3o)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Em janeiro de 1962, assume a chefia do Servi\u00e7o de Demarca\u00e7\u00e3o de Fronteiras, cargo que exerceria com especial empenho, tendo tomado parte ativa em momentosos casos como os do Pico da Neblina (1965) e das Sete Quedas (1966). Em 1969, em homenagem ao seu desempenho como diplomata, seu nome \u00e9 dado ao pico culminante (2.150 m) da Cordilheira Curupira, situado na fronteira Brasil\/Venezuela. O nome de Guimar\u00e3es Rosa foi sugerido pelo Chanceler M\u00e1rio Gibson Barbosa, como um reconhecimento do Itamarati \u00e0quele que, durante v\u00e1rios anos, exerceu a chefia do cargo da Chancelaria Brasileira.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: 14pt;\">Primeiras Est\u00f3rias<\/span><\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_62\" aria-describedby=\"caption-attachment-62\" style=\"width: 409px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-62 size-full\" src=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/257464_2.jpg\" alt=\"\" width=\"409\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/257464_2.jpg 409w, https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/257464_2-205x300.jpg 205w\" sizes=\"(max-width: 409px) 100vw, 409px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-62\" class=\"wp-caption-text\"><em>(Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Internet)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Em 1962, \u00e9 lan\u00e7ado Primeiras Est\u00f3rias, livro que re\u00fane 21 contos pequenos. Nos textos, as pesquisas formais caracter\u00edsticas do autor, uma extrema delicadeza e o que a cr\u00edtica considera &#8220;atordoante poesia&#8221;.<\/p>\n<p>O autor busca recuperar na escrita, a fala das personagens do sert\u00e3o mineiro; a poesia presente nas imagens, sons e estruturas de uma linguagem que est\u00e1 \u00e0 margem da norma estabelecida pelos padr\u00f5es urbanos.<\/p>\n<p>Em <em>As margens da alegria<\/em>, Guimar\u00e3es Rosa coloca-nos diante de um Menino que, na sua lenta descoberta do mundo, transforma tudo o que lhe passa diante dos olhos em experi\u00eancia de dor e alegria, vida e morte. Essa aprendizagem se d\u00e1 a partir da rela\u00e7\u00e3o direta com a natureza em toda a sua din\u00e2mica, para a qual o Menino volta um olhar sem reservas, cheio de admira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em <em>Famigerado<\/em> um m\u00e9dico do interior recebe a visita de quatro cavaleiros rudes do sert\u00e3o. Seu l\u00edder, Dam\u00e1sio, conhecido assassino da regi\u00e3o, quer que o doutor, pessoa letrada do lugar, o esclare\u00e7a a respeito do significado da palavra &#8220;famigerado&#8221;, pois ouviu esta palavra de um mo\u00e7o do governo. Podemos opor o poder da for\u00e7a, Dam\u00e1sio, ao poder da instru\u00e7\u00e3o, do conhecimento m\u00e9dico. Caso o m\u00e9dico tivesse revelado o sentido dicionarizado do termo, estaria, por certo, infligindo uma senten\u00e7a de morte ao mo\u00e7o do governo.<\/p>\n<p><em>Sor\u00f4co, sua m\u00e3e, sua filha<\/em> narra a partida de m\u00e3e e filha loucas no trem. Sor\u00f4co tentou ficar com as duas ao seu lado, mas n\u00e3o foi poss\u00edvel. Tomou a decis\u00e3o mais dif\u00edcil de sua exist\u00eancia: intern\u00e1-las. O conto tem uma tem\u00e1tica triste, trabalha com o sentido circular de passar a ang\u00fastia do personagem Sor\u00f4co com sua solid\u00e3o e desespero ao ter que deixar ir para longe as \u00fanicas pessoas que tem no mundo, ficando mais solit\u00e1rio ainda. Tudo gira em torno da separa\u00e7\u00e3o, da perda, da aus\u00eancia e da dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>A <em>Menina de l\u00e1<\/em> conta a hist\u00f3ria de Maria, ou &#8220;Nininha&#8221; que com seus nem quatro anos,\u00a0 ficava sempre sentada em um canto, e ningu\u00e9m entendia muito bem o que ela dizia. Era sensitiva, dotada de contatos m\u00edsticos, poderes paranormais: seus desejos, por mais estranhos que fossem sempre se realizavam. A menina come\u00e7a a falar mais, e coisas estranhas come\u00e7am a acontecer. Seus poderes come\u00e7am a dar uma mostra de maior intensidade quando a menina cura a doen\u00e7a de sua m\u00e3e e tamb\u00e9m quando ela atende o pedido de seu pai e faz chover. Nininha adoece e morre pouco tempo depois. Ti\u00e2ntonia explica que a menina tinha falado que queria um caix\u00e3ozinho cor-de-rosa, com enfeites verdes brilhantes. Os pais discutem se deveriam ou n\u00e3o encomendar o caix\u00e3o como a filha havia solicitado.<\/p>\n<p><em>Os Irm\u00e3os Dagob\u00e9<\/em> confirma a ideia popular de que Deus escreve certo por linhas tortas. Damastor Dagob\u00e9, bandido extremamente feroz, foi surpreendentemente assassinado por um sujeito aparentemente fraco, Liojorge, pressionado por leg\u00edtima defesa. \u00c9 em meio ao vel\u00f3rio que o narrador se coloca, para captar mais vivamente a rea\u00e7\u00e3o das pessoas presentes, todos com in\u00fameras conjecturas sobre como ser\u00e1 a vingan\u00e7a dos irm\u00e3os Dagob\u00e9. Liojorge, querendo deixar claro que havia matado com respeito e que queria estar na presen\u00e7a dos irm\u00e3os, para mostrar sua boa vontade. Se isso j\u00e1 deixou todos sobressaltados, muito mais quando se fica sabendo que o bom mo\u00e7o queria ajudar a carregar o caix\u00e3o de Damastor. Parecia que o medo havia feito do rapaz um maluco. Enterrado Damastor, seus irm\u00e3os agradecem a aten\u00e7\u00e3o dos acompanhantes, mostram compreens\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a Liojorge e reconhecem que o falecido, em vida, era mesmo muito ruim.<\/p>\n<p><em>A Terceira Margem do Rio<\/em> conta a hist\u00f3ria de um homem que evade de toda e qualquer conviv\u00eancia com a fam\u00edlia e com a sociedade, preferindo a completa solid\u00e3o do rio, lugar em que, dentro de uma canoa. Por contradizer os padr\u00f5es normais de comportamento, ele \u00e9 tido como um desequilibrado. O narrador-personagem \u00e9 seu filho e relata todas as tentativa da fam\u00edlia, parentes, vizinhos e conhecidos de estabelecer algum tipo de comunica\u00e7\u00e3o com o solit\u00e1rio remador. Contudo o pai recusa qualquer contato. A escolha do isolamento no rio instiga permanentemente o filho. Este \u00e9 levado a questionar o pr\u00f3prio existir humano.<\/p>\n<p><em>Pirlimpsiquice<\/em> \u00e9 a hist\u00f3ria de onze ou doze crian\u00e7as que est\u00e3o ensaiando uma pe\u00e7a, Os Filhos do Dr. Famoso, para ser encenada diante da escola. \u00c9 not\u00e1vel como crian\u00e7as, s\u00edmbolo da liberdade, agem no rigor dos ensaios constantes. O pior \u00e9 que um grupo de crian\u00e7as, ficou de fora de todo esse processo e come\u00e7a a espalhar que tem conhecimento da obra que os meninos ensaiam t\u00e3o em segredo. Ent\u00e3o, como disfarce, os atores criam uma terceira hist\u00f3ria. Tudo perfeitamente programado, mas em cima da hora o Ataualpa, quem iria abrir a pe\u00e7a, tem um parente que est\u00e1 para morrer e, por isso, precisa ir embora. Quem assume o seu lugar \u00e9 o narrador, que sabia todas as falas de cor, no entanto, na estreia \u00e9 que perceberam que a pe\u00e7a devia ser aberta por um poema conhecido s\u00f3 pelo Ataualpa. O narrador fica parado, sem saber o que fazer. A gafe \u00e9 paga com vaias monstruosas. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 salva por Z\u00e9 Bon\u00e9, garoto lim\u00edtrofe que teve sua participa\u00e7\u00e3o limitada a um papel sem fala. Inesperadamente come\u00e7a a encenar a pr\u00f3pria pe\u00e7a do Gamboa, no que \u00e9 seguido pelos demais garotos, como se estivessem num transe, que se transfere para a plateia, paralisando-a. Esse transe coletivo pode ser entendido como o poder da Arte.<\/p>\n<p><em>Nenhum, nenhuma<\/em> mostra A procura pelos fatos da inf\u00e2ncia que passaram e passam-se, constituindo uma tentativa de descobrir uma verdade misteriosa e inacess\u00edvel, que se articule e modifique o presente, lan\u00e7ando novas luzes ao futuro. Narra em primeira pessoa, com a cumplicidade expl\u00edcita de sua mem\u00f3ria, uma das personagens principais dessa hist\u00f3ria, tentando tamb\u00e9m compreender os dilemas que envolvem a aproxima\u00e7\u00e3o da morte. O narrador rosiano caminha como se estivesse perdido no labirinto de suas lembran\u00e7as, encontrando as sa\u00eddas ap\u00f3s um \u00e1rduo e doloroso esfor\u00e7o. Ao longo de sua odiss\u00e9ia, ele enfrenta a tens\u00e3o entre a mem\u00f3ria e o esquecimento, no resgate do passado, que n\u00e3o retorna em sua pureza original, mas \u00e9 fruto de uma singular sele\u00e7\u00e3o dos fatos lembrados.<\/p>\n<p><em>Fatalidade<\/em> contrap\u00f5e o poder da autoridade ao poder do homem comum, submetido \u00e0s leis e tematiza, em \u00faltima inst\u00e2ncia, a viol\u00eancia arbitr\u00e1ria existente no sert\u00e3o. Trata-se da hist\u00f3ria de Z\u00e9 Centeralfe, que vive acochado, pois sua esposa desonrosamente est\u00e1 sendo cortejada por um fac\u00ednora, Herculin\u00e3o. O casal, para evitar problemas, mudou-se, mas o bandido segue-os. Mudam-se ent\u00e3o para a cidade, onde deveria haver lei, ordem, seguran\u00e7a, mas continuam sendo seguidos. \u00c9 por isso que o pobre homem vai pedir ajuda ao delegado. A inten\u00e7\u00e3o \u00e9 obter o apoio da justi\u00e7a dos homens. No entanto, \u00e9 induzido a outro tipo de moral. Aparentemente, \u00e9 a justi\u00e7a pelas pr\u00f3prias m\u00e3os, pois o delegado convence Centeralfe, apenas com o olhar, a pegar as armas. Assim que saem, encontram Herculin\u00e3o, que \u00e9 assassinado com um tiro no peito (cora\u00e7\u00e3o) e outro na cabe\u00e7a (mente).<\/p>\n<p><em>Sequ\u00eancia<\/em> traz a hist\u00f3ria de uma busca. Essa busca \u00e9, a princ\u00edpio, material pois que um rapaz vai procurar uma vaca desgarrada do rebanho mas, no decorrer da trama, transforma-se numa busca espiritual em que a vaca transforma-se em uma ponte entre o mundo material e o espiritual. Volta a deparar com a for\u00e7a do destino, dentro da concep\u00e7\u00e3o roseana: um vaqueiro saindo \u00e0 procura de um animal extraviado n\u00e3o percebe que est\u00e1 indo ao encontro da pessoa amada. Como se, na vida, o pr\u00f3prio acaso, tecido de erros e enganos, de repente, sem raz\u00e3o aparente, iluminasse o caminho certo entre os muitos descaminhos da vida.<\/p>\n<p>Em<em> O Espelho, <\/em>o narrador, em primeira pessoa, conta de sua luta para provar a falta de l\u00f3gica e de sentido do mundo. Diante de um espelho, foi descobrindo com o passar dos dias a mentira que \u00e9 a apar\u00eancia humana. Num processo de &#8220;desimaginar-se&#8221;, vai verificando que o homem, como todas as coisas, n\u00e3o passa de uma met\u00e1fora. No limite do absurdo, ele chega a ver sua &#8220;forma invis\u00edvel&#8221;. O tema da identidade \u00e9 tratado atrav\u00e9s da met\u00e1fora do ato de se ver e se reconhecer no reflexo dos espelhos.<\/p>\n<p><em>Nada e a Nossa Condi\u00e7\u00e3o<\/em> mostra Tio Man\u2019Ant\u00f4nio que depois de casado resolve doar quase tudo que tem \u00e0queles que trabalham com ele. \u00c9 a ilumina\u00e7\u00e3o: os haveres materiais de nada valem para ele. A morte do protagonista provoca uma mudan\u00e7a de atitude por parte dos agregados, pois esses s\u00e3o tomados pelo medo. Se antes o desprezavam, depois de sua morte passam a envolv\u00ea-lo numa aura de santidade. Isso ocorre porque temem a justi\u00e7a divina quer, para castig\u00e1-los por seu \u00f3dio infundado, poderia alterar seus destinos, fazendo com que desgra\u00e7as se abatessem sobre eles. A execu\u00e7\u00e3o do ritual de adora\u00e7\u00e3o tem duplo objetivo: obter o perd\u00e3o divino e restituir-lhes a paz de esp\u00edrito.<\/p>\n<p><em>O Cavalo que Bebia Cerveja<\/em> enfoca os horrores e a desagrega\u00e7\u00e3o trazidos pela guerra, mostrando que o sert\u00e3o se torna tamb\u00e9m lugar de homens refugiados, perseguidos e s\u00f3s. Reivalino Belarmino conta a hist\u00f3ria do esquisito italiano Giov\u00e2nio, ex-combatente de guerra, que vivia isolado numa ch\u00e1cara com seus c\u00e3es, entre os quais se destaca Mussolino. O narrador, seu empregado, sente avers\u00e3o por este homem de estranhos h\u00e1bitos. Al\u00e9m de n\u00e3o tomar banho, vive fungando e sempre pede cerveja \u201cpara o cavalo\u201d. Ao morrer, Giov\u00e2nio deixa a ch\u00e1cara para Reivalino, que ajeita a propriedade a e vende. Antes, bebe todas as cervejas que restam, em mem\u00f3ria do amigo.<\/p>\n<p><em>Um Mo\u00e7o Muito Branco<\/em> traz um personagem que revela aos outros o que eles t\u00eam em si mesmos, e que raramente \u00e9 tocado. Este personagem, caracterizado por ser muito branco \u00e9 respons\u00e1vel pela mudan\u00e7a da perspectiva de vida das pessoas do lugar. A chegada do mo\u00e7o, cuja proced\u00eancia permanece desconhecida at\u00e9 o final do conto, coincide com a ocorr\u00eancia de uma s\u00e9rie de fen\u00f4menos naturais. Isso, somado ao inusitado de seus tra\u00e7os individuais, a seu estranho desaparecimento e ao fato de que todos se transformam diante de sua presen\u00e7a, aproxima sua imagem \u00e0 de um ser especial, enviando de outro planeta ou do plano divino.<\/p>\n<p><em>Luas-de-mel<\/em> pode ser interpretada como ilustra\u00e7\u00e3o para a ideia de que em meio a situa\u00e7\u00f5es corriqueiras, banais, \u00e9 poss\u00edvel viver fortes emo\u00e7\u00f5es e grandes amores. \u00c9 o que ocorre com Joaquim Norberto e Sa-Maria Andreza, velho casal acostumado com a vida pacata da fazenda Santa-Cruz-da-On\u00e7a e que tem a mesmice de sua vida quebrada pelo pedido do Coronel Seotaziano de prote\u00e7\u00e3o a um casal que quer casar-se, contrariando a decis\u00e3o da fam\u00edlia da mo\u00e7a. A chegada do casal provoca duas consequ\u00eancias: cria uma expectativa tensa de um combate, o que faz todos ficarem armados, at\u00e9 o padre, que viera celebrar o matrim\u00f4nio. Gera, tamb\u00e9m, o renascer do amor em Joaquim Norberto e sua esposa Sa-Maria Andreza.<\/p>\n<p><em>A Partida do Audaz Navegante<\/em> desenvolve duas narrativas absolutamente sim\u00e9tricas e correspondentes, a do narrador onisciente e a de Brejeirinha sobre as mesmas personagens e a\u00e7\u00f5es, Zito, a namorada, a separa\u00e7\u00e3o e o reencontro. A inten\u00e7\u00e3o \u00e9 privilegiar a linguagem e o universo infantil, seus jogos e brincadeiras.<\/p>\n<p><em>A Benfazeja<\/em> tem como protagonista a Mula-Marmela, mulher caracterizada como <em>\u201cfuribunda de magra, de esticado esqueleto, e o se sumir de sanguexuga, fugidos os olhos, lobunos cabelos, a cara (\u2026) o queixo tr\u00eamulo (\u2026) a selvagem compostura\u201d<\/em>. O narrador est\u00e1 determinado a convencer a todos que Mula Marmela, mulher est\u00e9ril, sem nome crist\u00e3o, dotada de linguagem antiga, n\u00e3o \u00e9 uma personagem maldita como sempre fora apregoado. Sua fun\u00e7\u00e3o fora benfazeja, pois eliminara dois personagens sedentos por sangue: seu companheiro Mumbungu e o filho deste, Retrup\u00e9, que chegou at\u00e9 a ser cegado pela madrasta para deter seu esp\u00edrito maligno.<\/p>\n<p><em>Darandina<\/em> disp\u00f5e sobre a loucura: uma pessoa comum que, por isso, consegue realizar uma fa\u00e7anha que espanta a todos os viventes e espectadores de um dia comum: escala, sem dificuldade alguma, uma palmeira e se instala no seu topo, resistindo a todas as tentativas que se fizeram para arranc\u00e1-la de l\u00e1. As consequ\u00eancias desse fato inusitado s\u00e3o as mais diversas, mas o principal \u00e9 que se chega \u00e0 conclus\u00e3o de que faltam conceitos para explic\u00e1-lo. Sua maluca subida mostra uma confus\u00e3o que a personagem faz entre plano denotativo (sair do ch\u00e3o, ao p\u00e9 da letra) e plano conotativo (sair do ch\u00e3o no sentido de buscar a transcend\u00eancia).<\/p>\n<p><em>Subst\u00e2ncia<\/em> apresenta uma bela met\u00e1fora sobre a pureza de sentimento decorrente da retid\u00e3o e do sofrimento. H\u00e1 trabalho incessante, e o cotidiano de uma menina dedicada a bater o polvilho, num movimento incans\u00e1vel, \u00e9 descrito nos planos objetivo e subjetivo. No enredo, vemos a descri\u00e7\u00e3o do trabalho, da lida e da luta pela sobreviv\u00eancia, e temos um valioso retrato dos costumes de uma comunidade que tem como uma das formas de subsist\u00eancia o fabrico e o depuramento do polvilho, bem como as condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias e primitivas em que este trabalho \u00e9 realizado.<\/p>\n<p><em>Tarant\u00e3o, Meu Patr\u00e3o<\/em> \u00e9 a est\u00f3ria de um \u201clouco-iluminado\u201d, o I\u00f4 J\u00e3o-de-Barros-Dinis-Robertes, narrada em primeira pessoa por Vagalume, ajudante-de-ordens do protagonista e encarregado de cuidar dele, que, envelhecido, era dado a doideiras e desatinos.\u00a0 \u00c9 a hist\u00f3ria de um velho que j\u00e1 fora mand\u00e3o e que tinha sido afastado da fam\u00edlia, por causa de sua caduquice ? que j\u00e1 pode ser vislumbrada de in\u00edcio pelo costume da personagem de usar botas desiguais. Vagalume tem a fun\u00e7\u00e3o de cuidar do idoso, mas se v\u00ea em apuros, j\u00e1 que o anci\u00e3o tem um surto e, armado de uma velha faca de cozinha enferrujada, parte numa busca maluca para se vingar de um m\u00e9dico que o havia feito sofrer com aplica\u00e7\u00e3o de rem\u00e9dio e lavagem intestinal.<\/p>\n<p>Os cismos \u00e9 retomado o mesmo tema de A margem da Alegria: a descoberta do mundo, de sua magia, dos ritos da tristeza e da alegria, dos ritos da travessia e de supera\u00e7\u00e3o do medo a e da dor. O protagonista \u00e9 o mesmo Menino, da primeira est\u00f3ria, agora em sua segunda viagem. Dividido em quatro partes, a saber, I \u2013 O Inverso Afastamento; II \u2013 Aparecimento do P\u00e1ssaro; III \u2013 O Trabalho do P\u00e1ssaro e IV \u2013 O Desmedido Momento, principia em sentido inverso da As Margens da Alegria: por causa da doen\u00e7a de sua m\u00e3e, o Menino \u00e9 enviado \u00e0 fazenda do tio (o mesmo do primeiro conto). O ponto final de As Margens da Alegria \u00e9 o in\u00edcio de Os Cimos: a morte. Por\u00e9m, o menino faz, aqui, sua viagem n\u00e3o mais no feliz, mas na agonia, pois sua M\u00e3e corre um s\u00e9rio risco de morrer. O menino parece inconscientemente sentir que se ligar fortemente \u00e0s coisas \u00e9 ruim, tanto que sua agonia \u00e9 crescente. Parece n\u00e3o querer mais querer. Querer \u00e9 apegar-se. Apegar-se \u00e9 sofrer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: 14pt;\">Elei\u00e7\u00e3o para a Academia Brasileira de Letras<\/span><\/strong><\/p>\n<p>Em maio de 1963, Guimar\u00e3es Rosa candidata-se pela segunda vez \u00e0 Academia Brasileira de Letras (a primeira fora em 1957, quando obtivera apenas 10 votos), na vaga deixada por Jo\u00e3o Neves da Fontoura. A elei\u00e7\u00e3o d\u00e1-se a 8 de agosto e desta vez \u00e9 eleito por unanimidade. Adiou a posse <em>sine die<\/em>, por medo das fortes emo\u00e7\u00f5es que teria no momento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: 14pt;\">Livros em parceria<\/span><\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_63\" aria-describedby=\"caption-attachment-63\" style=\"width: 302px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-63\" src=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/O_MISTERIO_DOS_MMM_15299418376700SK1529941838B.jpg\" alt=\"\" width=\"302\" height=\"458\" srcset=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/O_MISTERIO_DOS_MMM_15299418376700SK1529941838B.jpg 300w, https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/O_MISTERIO_DOS_MMM_15299418376700SK1529941838B-198x300.jpg 198w\" sizes=\"(max-width: 302px) 100vw, 302px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-63\" class=\"wp-caption-text\"><em>(Foto: Skoob)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Em 1964, participou da escrita do romance policial <em><strong>O Mist\u00e9rio dos MMM<\/strong><\/em>, editado por Jo\u00e3o Cond\u00e9, um dos nossos mais famosos exemplos de \u201cround-robin\u201d, romance em que cada autor escreve um cap\u00edtulo. Dez autores escrevera sobre a hist\u00f3ria de um crime violento durante o Carnaval, no apartamento de um milion\u00e1rio em Copacabana, onde tr\u00eas mulheres n\u00e3o identificadas, cujos nomes come\u00e7am pela mesma letra foram assassinadas. Os cap\u00edtulos, eram publicados semanalmente em O Cruzeiro, posteriormente virando livro.<\/p>\n<p>Rosa contribuiu com uma detetive, a Tia Maria, que tem com o comiss\u00e1rio Dr. Brasil. A personagem foi adotada pelos autores dos cap\u00edtulos finais, e traz uma certa ajuda para o delegado Rocha Novais, o velho investigador Soares e o pr\u00f3prio Dr. Brasil, que no auge do desespero com a investiga\u00e7\u00e3o que n\u00e3o progride desabafa com a melhor frase do livro: <em>\u201cEsse neg\u00f3cio de crime devia ser proibido!\u201d<\/em>.<\/p>\n<figure id=\"attachment_64\" aria-describedby=\"caption-attachment-64\" style=\"width: 302px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-64\" src=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/2588216.jpg\" alt=\"\" width=\"302\" height=\"468\" srcset=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/2588216.jpg 387w, https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/2588216-194x300.jpg 194w\" sizes=\"(max-width: 302px) 100vw, 302px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-64\" class=\"wp-caption-text\"><em>(Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Internet)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Ainda no mesmo ano,\u00a0 participou do livro <em><strong>&#8220;Os sete pecados capitais&#8221;<\/strong><\/em>, onde cada escritor escreveu sobre um pecado. \u00c0 Guimar\u00e3es Rosa coube escrever sobre a Soberba, no cap\u00edtulo inaugural e mais importante da obra que, com o t\u00edtulo \u201cOs chap\u00e9us dos transeuntes\u201d, ilustra a soberba na figura de um moribundo e sua numerosa fam\u00edlia \u00e0 sua volta, com muitos retornando \u00e0 sua casa no interior do pa\u00eds para enterr\u00e1-lo. Ecoando o Grande sert\u00e3o: veredas, Rosa brinca com seu \u201cnonada\u201d inicial come\u00e7ando com uma varia\u00e7\u00e3o: <em>\u201cDe antem\u00e3o: \u2013 N\u00e3o.\u201d<\/em> Outra das suas se d\u00e1 quando, ao descrever o personagem, diz dele que, <em>\u201cde t\u00e3o egoc\u00eantrico, ele se colecionava.\u201d<\/em>. No decorrer da narrativa o moribundo morre, renasce e novamente morre descrito pelo narrador seu neto que se descreve como <em>\u201cn\u00f3s outros, os Dandrades Pereiras Serapi\u00e3es, anchos em feliz fortuna e pros\u00e1pia, como as uvas que num cacho se repimpam\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: 14pt;\">Vida de Escritor<\/span><\/strong><\/p>\n<p>Em janeiro de 1965, participa do Congresso de Escritores Latino-Americanos, em G\u00eanova. Como resultado do congresso ficou constitu\u00edda a Primeira Sociedade de Escritores Latino-Americanos, da qual o pr\u00f3prio Guimar\u00e3es Rosa e o guatemalteco Miguel Angel Asturias foram eleitos vice-presidentes.<\/p>\n<figure id=\"attachment_74\" aria-describedby=\"caption-attachment-74\" style=\"width: 598px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-74\" src=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/rosa-drummond-bandeira.jpg\" alt=\"\" width=\"598\" height=\"350\" srcset=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/rosa-drummond-bandeira.jpg 598w, https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/rosa-drummond-bandeira-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 598px) 100vw, 598px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-74\" class=\"wp-caption-text\"><em>Carlos Drummond, Guimar\u00e3es Rosa e Manuel Bandeira (Foto: Blog das Letras)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Em abril de 1967, Guimar\u00e3es Rosa vai ao M\u00e9xico na qualidade de representante do Brasil no I Congresso Latino-Americano de Escritores, no qual atua como vice-presidente. Na volta \u00e9 convidado a fazer parte, juntamente com Jorge Amado e Ant\u00f4nio Olinto, do j\u00fari do II Concurso Nacional de Romance Walmap que, pelo valor material do pr\u00eamio, \u00e9 o mais importante do pa\u00eds.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: 14pt;\">Tutam\u00e9ia<\/span><\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_65\" aria-describedby=\"caption-attachment-65\" style=\"width: 320px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-65\" src=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/Tutameia.jpg\" alt=\"\" width=\"320\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/Tutameia.jpg 320w, https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/Tutameia-192x300.jpg 192w\" sizes=\"(max-width: 320px) 100vw, 320px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-65\" class=\"wp-caption-text\"><em>(Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Internet)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Em meados de 1967, publica seu \u00faltimo livro: Tutam\u00e9ia. O livro foi esbo\u00e7ado sumariamente para conter contos curtos e que fossem acess\u00edveis \u00e0 publica\u00e7\u00e3o em revistas. \u00c9 o livro que formula os contos mais curtos da obra de Guimar\u00e3es Rosa. O t\u00edtulo Tutam\u00e9ia, segundo Paulo R\u00f3nai <em>\u201cno Pequeno Dicion\u00e1rio Brasileiro da L\u00edngua Portuguesa encontramos tuta-e-meia definida por mestre Aur\u00e9lio como ninhada, quase nada, pre\u00e7o vil, pouco dinheiro.\u201d <\/em><\/p>\n<p>Tutam\u00e9ia foi uma nova efervesc\u00eancia no meio liter\u00e1rio, novo \u00eaxito de p\u00fablico, dividindo a cr\u00edtica. Uns v\u00eaem o livro como <em>&#8220;a bomba at\u00f4mica da literatura brasileira&#8221;<\/em>; outros consideram que em suas p\u00e1ginas encontra-se a <em>&#8220;chave estil\u00edstica da obra de Guimar\u00e3es Rosa, um resumo did\u00e1tico de sua cria\u00e7\u00e3o&#8221;<\/em>.<\/p>\n<p>Tutam\u00e9ia recebe o subt\u00edtulo Terceiras est\u00f3rias, por\u00e9m at\u00e9 o momento o autor s\u00f3 havia publicado a colet\u00e2nea Primeiras Est\u00f3rias, h\u00e1 um salto ent\u00e3o. Fica ent\u00e3o um eterno ponto de interroga\u00e7\u00e3o do que poderia ser as Segundas Est\u00f3rias. Tutam\u00e9ia possui uma caracter\u00edstica interessante, o livro possui dois sum\u00e1rios, sendo no primeiro apresentando Tutam\u00e9ia (terceiras est\u00f3rias), no final do livro o t\u00edtulo do sum\u00e1rio \u00e9 posto em rev\u00e9s: Terceiras Est\u00f3rias (tutam\u00e9ia). O livro \u00e9 composto por quatro pref\u00e1cios. Sendo que cada pref\u00e1cio s\u00e3o postos no bojo do livro, intercalando leitura e reflex\u00e3o. Nesses pref\u00e1cios, Guimar\u00e3es dialoga com o leitor sob a voz de um pseudo-autor.<\/p>\n<p>Nas 40 hist\u00f3rias, o enredo \u00e9 muito t\u00eanue. A hist\u00f3ria, fica apenas a vida a expor-se, a entremostrar, neste painel de &#8216;tutam\u00e9ias&#8217;, fazendo com que os leitores tenham flashes sobre determinadas situa\u00e7\u00f5es que o leitor atento deve captar e, pelo racioc\u00ednio, completar, dando-lhe continuidade. H\u00e1, portanto, em todo o livro, um movimento de solicitar a participa\u00e7\u00e3o efetiva do leitor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: 14pt;\">Posse na Academia Brasileira de Letras<\/span><\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_66\" aria-describedby=\"caption-attachment-66\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-66\" src=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/Guimaraes-Rosa-3.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/Guimaraes-Rosa-3.jpg 300w, https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/Guimaraes-Rosa-3-150x150.jpg 150w, https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/Guimaraes-Rosa-3-75x75.jpg 75w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-66\" class=\"wp-caption-text\"><em>Guimar\u00e3es Rosa em seu discurso de posse na ABL (Foto: Templo Cultural Delfos)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Depois de quatro anos de adiamento, resolveu assumir a cadeira na Academia Brasileira de Letras.<\/p>\n<p>Rosa era m\u00e9dico, estava ciente de seus h\u00e1bitos de fumante e sedent\u00e1rio, agravados pelo hist\u00f3rico de cardiopatia na fam\u00edlia. Sabia que uma emo\u00e7\u00e3o mais forte poderia mat\u00e1-lo, e a t\u00e3o aguardada cerim\u00f4nia de posse era um ensejo para isso. Tamb\u00e9m ouvira de um pai de santo com quem se correspondia em Minas Gerais que iria morrer no momento em que a fama do sobrenome Guimar\u00e3es Rosa superasse a exist\u00eancia do indiv\u00edduo Jo\u00e3o. Ainda que estivesse relutante, amigos e familiares diziam que ele se preparava para o desenlace fatal.<\/p>\n<figure id=\"attachment_67\" aria-describedby=\"caption-attachment-67\" style=\"width: 320px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-67\" src=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/gr1956gd.jpg\" alt=\"\" width=\"320\" height=\"359\" srcset=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/gr1956gd.jpg 320w, https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/gr1956gd-267x300.jpg 267w\" sizes=\"(max-width: 320px) 100vw, 320px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-67\" class=\"wp-caption-text\"><em>Guimar\u00e3es Rosa, assinando livro de posse na ABL (Foto: Templo Cultural Delfos)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Meses antes, o escritor chamou sua filha Vilma na sala que ocupava no Pal\u00e1cio do Itamaraty, no Rio de Janeiro, mostrando-lhe o cofre onde guardava documentos importantes, al\u00e9m dos doces de leite que levava de Minas. L\u00e1 haviam dois ma\u00e7os de papel, protegidos por capas de pl\u00e1stico transparente. Eram os originais dos livros Estas est\u00f3rias e Ave, palavra, que estavam supostamente prontos \u00e0 espera de publica\u00e7\u00e3o. Rosa deu ordens expressas \u00e0 filha: <em>\u201cSe algo me acontecer, leve imediatamente ao editor Jos\u00e9 Olympio\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>Terceiro ocupante da Cadeira 2, eleito em 8 de agosto de 1963, na sucess\u00e3o de Jo\u00e3o Neves da Fontoura e recebido pelo Acad\u00eamico Afonso Arinos de Melo Franco em 16 de novembro de 1967.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: 14pt;\">Discurso de Posse<\/span><\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_68\" aria-describedby=\"caption-attachment-68\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-68\" src=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/33080623_rio-de-janeiro-rj-16-11-1967-joao-guimaraes-rosa-escritor-guimaraes-rosa-de-fardao-du_dj_01.png\" alt=\"\" width=\"560\" height=\"430\" srcset=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/33080623_rio-de-janeiro-rj-16-11-1967-joao-guimaraes-rosa-escritor-guimaraes-rosa-de-fardao-du_dj_01.png 560w, https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/33080623_rio-de-janeiro-rj-16-11-1967-joao-guimaraes-rosa-escritor-guimaraes-rosa-de-fardao-du_dj_01-300x230.png 300w\" sizes=\"(max-width: 560px) 100vw, 560px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-68\" class=\"wp-caption-text\"><em>Guimar\u00e3es Rosa, na posse na Academia Brasileira de Letras, entre Juscelino Kubitschek e Autr\u00e9silo de Athayde (Foto: O Bar\u00e3o)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>O escritor faz seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras com a voz embargada. Parece pressentir que algo de mal lhe aconteceria.<\/p>\n<p>Tamanho era seu amor por Cordisburgo, que o nome da cidade foi a primeira e \u00faltima palavra pronunciada em seu discurso de posse.<\/p>\n<blockquote><p><em>Cordisburgo era pequenina terra sertaneja, tr\u00e1s montanhas, no meio de Minas Gerais. S\u00f3 quase lugar, mas t\u00e3o de repente bonito: l\u00e1 se desencerra a Gruta do Maquin\u00e9, milmaravilha, a das Fadas; e o pr\u00f3prio campo, com vasqueiros cochos de sal ao gado bravo, entre gentis morros ou sob o demais de estrelas, falava-se antes: \u201cos pastos da Vista Alegre&#8221;. Santo, um &#8220;Padre Mestre&#8221;, o Padre Jo\u00e3o de Santo Ant\u00f4nio, que recorria atarefado a regi\u00e3o como mission\u00e1rio volunt\u00e1rio, al\u00e9m de trazer ao raro povo das grotas toda sorte de assist\u00eancia e ajuda, esbarrou ali, para realumbrar-se e conceber o que tenha talvez sido seu \u00fanico gesto desengajado, gratuito. Tomando da inspira\u00e7\u00e3o da paisagem a loci opportunitas, declarou-se a erguer ao Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus um templo naquele mist\u00e9rio geogr\u00e1fico. F\u00ea-lo e fez-se o arraial, a que o fundador chamou &#8220;O Burgo do Cora\u00e7\u00e3o&#8221;. S\u00f3 quase cora\u00e7\u00e3o \u2013 pois onde chuva e sol e o claro do ar e o enquadro cedo revelam ser o espa\u00e7o do mundo primeiro que tudo aberto ao supra-ordenado: influem, quando menos, uma no\u00e7\u00e3o m\u00e1gica do universo.<\/em><\/p>\n<p><em>Mas, por &#8220;Cordisburgo&#8221;, igual, verve no s\u00e9rio-l\u00fadico de instantes, me tratava, ele, chefe e o amigo meu, Jo\u00e3o Neves da Fontoura. &#8211; &#8220;Vamos ver o que diz Cordisburgo&#8230;&#8221; &#8211; com o riso arroucado, quente, dirigindo-se nem reto a mim, sen\u00e3o feito a escrutar sua presente sempre cidade natal, &#8220;no cora\u00e7\u00e3o do Rio Grande do Sul&#8221;. Provinciano &#8211; no justo tra\u00e7o psicol\u00f3gico e moral, que n\u00e3o no social e pol\u00edtico &#8211; buscasse, aqueles momentos, uma reinsufla\u00e7\u00e3o de l\u00e1, entre o aconselhamento. Dessa Cachoeira, que o formou, que ele constante amou, a que como Prefeito prestou devotado e afincado anos de vida, refazendo-a, e pronunciando-se ainda filho devedor, dela orgulhoso; como, pensando &#8220;rio-grandensemente&#8221;, diz ser o Rio Grande &#8220;orgulhosamente prov\u00edncia&#8221;. Ribeiro Couto, saudoso mais hoje conosco, e que a ponto co-adotara o hipocor\u00edstico, de Belgrado vem vez me telegrafava: &#8220;Pouso Alto se embandeira e toca os sinos em honra de Cordisburgo&#8221;. Jo\u00e3o Neves, por\u00e9m, nosso Embaixador e Chanceler &#8211; requerendo o interior e a prov\u00edncia, onde firma residir ainda &#8220;a for\u00e7a do Brasil, especialmente nos maiores Estados&#8221;, reclamando seu trato como necess\u00e1rio para quem aspire a exercer qualquer not\u00f3ria influ\u00eancia, imputando \u00e0s metr\u00f3poles levarem &#8220;ao diletantismo, \u00e0 superficialidade, ao epicurismo&#8221;, e professando nada conhecer &#8220;que melhor exprima a vontade do povo em geral do que o povo municipal&#8221;, &#8211; entend\u00edamos juntos, do modo, o Pa\u00eds entran\u00e7ado e uno, nosso primordial encontro seriam resv\u00e9s \u00edntimos efeitos regionais. Para Paris, escreveu-me: &#8220;Vi uma fotografia da entrega de credenciais do Carlinhos. Nela voc\u00ea aparece no fundo ostentando uma gravata de listas vivas, que tanto pode ser fabrica\u00e7\u00e3o do Sulka, como comprada no armarinho da Main Street de Cordisburgo\u201d. Via-me lento e desacostumado mineiro capiau, indeformado, ou o-qu\u00ea, segundo seu avaliar, xar\u00e1 e ca\u00e7ula companheiro no sentir de homem l\u00e1-de-fora ou l\u00e1-de-dentro; isso nos concertava. \u00c0s quandas, equivocava-se e dava-me \u201cBarbacena&#8221; &#8211; a sagaz e espiritual, onde, em tempos diversos, ambos resid\u00edramos gratamente, e t\u00e3o-ent\u00e3o n\u00e3o menos um nosso &#8220;lugar geom\u00e9trico&#8221;. Por mim, frequente respondia-lhe topando top\u00f4nimos. &#8211; &#8220;Cachoeira concorda?&#8221; &#8211; se bem que, no comum, o chamasse de &#8220;Ministro&#8221;. Escuto-o: &#8211; &#8220;E agora? Que h\u00e1 com Cordisburgo?&#8221;<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Muito, Ministro. Muita coisa&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>De fim a fundo. Digo, conto o que de Jo\u00e3o Neves da Fontoura, por afortunada aproxima\u00e7\u00e3o, me foi dado colher &#8211; o transordin\u00e1rio na experi\u00eancia humana ordin\u00e1ria, ideia e impress\u00e3o, singelo testemunho simples, do ato ao fato \u2013 na mem\u00f3ria mais sentida. Para tanto, terei de \u00e0-pauta citar-me. Embora. No que refiro, sub-refiro-me. N\u00e3o para a seus ombros aprontar minha biografia, isto \u00e9, retocar minha caricatura. N\u00e3o eu, mas mim. In\u00e1bil redutor, secundarum partium, comparsa, mera pessoa de alus\u00e3o, e h\u00e1 de haver que necess\u00e1ria. O espelho n\u00e3o porfia brilhar nem ser; mas, por de-fim, para usa\u00e7\u00e3o, bem tem de relustrar-se. Direi.<\/em><\/p>\n<p><em>Dele devo, por exemplo, datar o que recebi, com m\u00e3os menores. Da valia intelectual e dos rastros de cumprida vida p\u00fablica &#8211; sua vasta capacidade inquieta, sua folha de batalhas, seus breves postos em poder e frementes empenhos de antagonista, seu inteiro atuar na pol\u00edtica brasileira, tantas horas decisivo, tensa sua figura hist\u00f3rica &#8211; discorrem e esclarecer\u00e3o, a olhos gerais, os anais, arquivos, livros, espl\u00eandida informa\u00e7\u00e3o autobiogr\u00e1fica. Esse o metal j\u00e1 amoedado &#8211; n\u00e3o permitido a alguma esp\u00e9cie de desaparecimento e esquecimento. Duvidemos, isto, dos que o n\u00e3o souberam compreender; a tra\u00e7a n\u00e3o pode com a alfazema. Tenho, sim, muito pouco, um tant\u00e9simo, um quant\u00e9simo. O que devo portar por f\u00e9.<\/em><\/p>\n<p><em>Nem o que queria atinjo. Como redemonstrar a grandeza individual de um homem, m\u00e9rito longu\u00edssimo, sua humanidade profunda: passar do Jo\u00e3o Neves relativo ao Jo\u00e3o Neves absoluto? Sua perene lembran\u00e7a &#8211; me reobriga. O afeto prop\u00f5e fortes e mi\u00fadas reminisc\u00eancias. Por essa mesma proximidade, tanto e muito me escapa; fino, estranho, inacabado, \u00e9 sempre o destino da gente.<\/em><\/p>\n<p><em>Vai para 40 anos; e era momento de juventude. S\u00fabito, o povo guardava brado e gesto, um come\u00e7o de come\u00e7o. Foi a 5 de agosto de 1929. Aparecia para o Brasil, deste tamanho, um nome &#8211; o do destravador, servo d\u00e1 palavra e de prender fogo. (Jo\u00e3o &#8211; que nem os Cris\u00f3logos, Cris\u00f3stomos, donde ouro qual tal: Fons Aurea, Fonte \u00e1uria, Fontoura; alvo &#8211; Neves &#8211; em nitidez). Davam os jornais, eco centelhar de fragmentos, sua fala na C\u00e2mara, de tr\u00eas horas, discurso-suma de toda uma esquipada: &#8220;&#8230; Vamos para o pr\u00e9lio aceso das urnas, e qui\u00e7\u00e1 para o pr\u00e9lio sangrento das armas.&#8221; Vocava &#8220;uma cren\u00e7a nas for\u00e7as imortais do esp\u00edrito de renova\u00e7\u00e3o.&#8221; Reportava-nos os da altiva marca meridional, de rajadas, rasgos, verticalidade e \u00edmpeto, robusta evolu\u00e7\u00e3o c\u00edvica: &#8230; &#8220;os rio-grandenses, que tra\u00e7aram as fronteiras da P\u00e1tria a ponta de lan\u00e7a e pata de cavalo&#8230;&#8221; &#8211; o ga\u00facho de brio e cerne ao ar livre. Trazia a Para\u00edba, valente em entono em son\u00e2ncia, &#8220;at\u00e9 \u00e0s montanhas de Minas Gerais. Minas pac\u00edfica, Minas vitoriosa!&#8221; Tomamo-lo a tento. Ele ardia. Ia, no entreassomo, mas no eito do arremesso:<\/em><\/p>\n<p><em>&#8220;Sonhava nesta gera\u00e7\u00e3o bastarda<\/em><br \/>\n<em>Gl\u00f3rias. . . e liberdade!<\/em><br \/>\n<em>. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .<\/em><br \/>\n<em>O g\u00eanio das pelejas parecia&#8230;&#8221;<\/em><br \/>\n<em>&#8211; o de \u00c1LVARES DE AZEVEDO, no &#8220;Pedro Ivo&#8221;. Mas, de quem, ent\u00e3o:<\/em><\/p>\n<p><em>&#8220;A fronte envolta em folha de loureiro<\/em><br \/>\n<em>N\u00e3o a escondamos, n\u00e3o!&#8221;<\/em><\/p>\n<p><em>Na convibra\u00e7\u00e3o, no momento, comport\u00e1vamos, n\u00f3s outros, seja ou n\u00e3o, sobeja exalta\u00e7\u00e3o e fantasia. Seduzia-nos assim entanto, imantados, o pregador, o Orador por antonom\u00e1sia &#8211; que acudira das assembleias de sua terra, politizada e parlament\u00e1ria, sobressa\u00eddo em quanto \u00e2mbito de ac\u00fasticas e toda sorte de embates, medalhado j\u00e1 de fulgor e forma, desde as pugnas de estudante senhor da tribuna. Vinha-se mais de ouvi-lo, frente \u00e0s artes-m\u00e1gicas do fatual e retendo-o da\u00ed como haraldo de um futuro em faces limpas. Seu discurso &#8211; seus discursos &#8220;liberais&#8221; &#8211; rota de obriga\u00e7\u00e3o &#8211; trem e incessar de lumes. Neles podia-se experimentar n\u00e3o apenas a comensura de fac\u00fandia e talento: mas coragem, de cor, \u00e2nimo, de alma. Tive-o, imediato, antes que outro incorporando em si o movimento que arrancava. Todo o mais adiante foi confirma\u00e7\u00e3o. Gra\u00e7as por este s\u00f3brio meu n\u00e3o desacerto.<\/em><\/p>\n<p><em>Seguiu-se, meses altibaixos, o comando do l\u00edder, causa avan\u00e7adora daquelas jornadas, que tangeram o remate da Primeira Rep\u00fablica. Reconhece-se e un\u00e2nime refere-se que Jo\u00e3o Neves da Fontoura &#8211; promotor da intelig\u00eancia com Minas e, a todo e pr\u00f3prio risco e quase rituar m\u00edstica significa\u00e7\u00e3o, com Minas firmador do pacto da Alian\u00e7a &#8211; susteve e alentou, inarredado, infatig\u00e1vel, insobrossoso, o roj\u00e3o da campanha at\u00e9 \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o e o triunfo. Dele foi a representa\u00e7\u00e3o em relevo. Dele se retraiu &#8211; modo algum por machuque em melindre, frustra\u00e7\u00e3o ressentida ou rancor de ambi\u00e7\u00e3o, sei-qu\u00ea; sen\u00e3o por dr\u00e1stico realismo conforme desconfiado desencanto, &#8211; sempre oper\u00e1rio todavia tentando servir a uma ent\u00e3o imposs\u00edvel congra\u00e7a ou enquistando-se na vigil\u00e2ncia mais l\u00facida. Dele n\u00e3o desmentiu ao conspirar a pronta reconstitucionaliza\u00e7\u00e3o de um Brasil renovado na ordem democr\u00e1tica &#8211; e a sustentar, verbo, o gl\u00f3rio S\u00e3o Paulo de 1932, para onde arriscara-se a abrir o arco, num mixe avi\u00e3ozinho de aluguel, em expediente dram\u00e1tico qual leal declara\u00e7\u00e3o de firmeza e vivo audaz como labareda met\u00e1fora. Nem o denegriu, j\u00e1 depois no ex\u00edlio, publicando-se desabusado acusador; menos ainda, mais tarde, ao repor-se com o Governo, porquanto flui, outro-e-outro, o rio humano, certo se no \u00e1lveo do \u00e1rduo de prop\u00f3sitos, e: quem pensa no Brasil, e no povo do Brasil, vezes quantas rebeija pedras e santos. Not\u00e1vel esse mir\u00e1vel Jo\u00e3o Neves. Voltava, em 35, remanente l\u00edder, \u00e0 C\u00e2mara, da Minoria, de novo facho e voz.<\/em><\/p>\n<p><em>Esta era uma vontade, fr\u00e1gil alta for\u00e7a.<\/em><\/p>\n<p><em>&#8220;Orador, foi dos maiores sen\u00e3o o maior, do nosso tempo&#8221; &#8211; consigna Afonso Arinos de Melo Franco. Dep\u00f5e: &#8220;Jo\u00e3o Neves da Fontoura&#8230; oriundo dos mais ilustres troncos sulinos&#8230; o fulgurante paladino de 1930&#8230; o mosqueteiro ga\u00facho&#8230; contou com um incompar\u00e1vel instrumento: a sua verdadeira e magn\u00edfica eloqu\u00eancia. Jo\u00e3o Neves chegara dos pagos com fama de tem\u00edvel orador. A brilhante campanha orat\u00f3ria de Jo\u00e3o Neves por esse tempo, que transformou, afinal, a oposi\u00e7\u00e3o em revolu\u00e7\u00e3o, n\u00e3o encontra talvez nada superior, e pouco haver\u00e1 de compar\u00e1vel, em toda a hist\u00f3ria parlamentar do Brasil. Quantas vezes o vi e outras tantas o admirei.&#8221;<\/em><\/p>\n<p><em>Por mim escutei-o sempre com alegria alertada. Ver era v\u00ea-lo partir a falar, sem manhas de virtuose que soberbas de \u00e1s, vezos nem rompante: cumprindo apenas correto informar o recado, propor sua pleita, dar conta. Ele, que meditava e redigia os discursos, drede botava-os sob contido arranjo, alinhando t\u00f3picos reflexivos, conceitual o pensamento, lisa correntia a linguagem, lhano o teor cogente. Lidos, pegavam logo disciplinada periodicidade e velocidade uniforme: nanja bolea\u00e7\u00f5es, arrastos, ret\u00f3ricas ou vocais surpresas; por-pouco nenhum ornato. S\u00e9rias serenas as fei\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m ele n\u00e3o se prometia em porte e aspecto; retreito de gestos, n\u00e3o mimava a jogo. A voz, antes desbrilhada, s\u00f3 insist\u00eancia e volume, forjando-se hirta ou adensada se entornando, dados foscos subtons, tocava as frases num andamento ascendente quase invariado, sequ\u00eancia de pontuais cortes e sim\u00e9tricas modula\u00e7\u00f5es, homof\u00f4nicas.<\/em><\/p>\n<p><em>Ent\u00e3o. E, em instante, brusco ou gradual, baixavam-lhe outras veras, estalo, faculdade, f\u00f4lego, expediam-se-Ihe por volta anjos novos da guarda, caboclos, g\u00eanio, verbig\u00eanio, apol\u00ednica chispa, o &#8220;duende&#8221;, o &#8220;daimon&#8221;? Erguia-se e erguia-nos, por como\u00e7\u00e3o e impacto, raptura. Ereto &#8211; m\u00ednimo vulto, mais mente e menos mat\u00e9ria &#8211; maludo e esmarte agora, ao \u00e1pice e \u00e0s ordens, no tinir do metal, centro de c\u00edrculos at\u00e9 que em fecho enfim o circuito \u00fanico encantat\u00f3rio, por efluxo tamb\u00e9m invari\u00e1vel -: daquela presen\u00e7a e intensidade an\u00edmica. Induzia, convencia; impressionava, quando n\u00e3o, encostando em respeito advers\u00e1rios, e nos sem-jeito os emparedadamente insens\u00edveis. Isto: isto \u00e9, sabeis, o orador, o fluido e o halo. O que responde igual, mas circumpatia e nimbo esp\u00farios, a outras dic\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o menos sojigam e enfeiti\u00e7am &#8211; a p\u00edtica, a hipn\u00f3tica, pseuda e s\u00f3-Iabiosa, a elemental ou animal, mesmo a ves\u00e2nica. N\u00e3o a dele. Sua palavra era lavada forra do ideal sobre o contingente.<\/em><\/p>\n<p><em>Assim aqui, assim l\u00e1, nas alienas e internacionais reuni\u00f5es. Ao abrir, inesquecivelmente, a IX Interamericana, de Bogot\u00e1, por lembrar. Ou, na Confer\u00eancia da Paz, em Paris, quando acor\u00e7oados o espi\u00e1vamos assumir a tribuna, do mundo, convocado pelos &#8220;grandes&#8221;, Bevin, Bidault, Molotov, que alternados ali presidiam: &#8211; &#8220;I call upon the Representative of Brazil, Mr. da Fontoura&#8230;&#8221; &#8211; &#8220;Je donne Ia parole au Premier D\u00e9l\u00e9gu\u00e9 du Br\u00e9sil, Monsieur Da Fontoura&#8230;&#8221; &#8211; &#8220;Imi\u00e9iet sl\u00f3vo P\u00earvyi Braz\u00edlhskii Delegat Gospodin da Fontoura&#8230;&#8221; Ah, Ministro! Como cabe tanta coisa nos meus olhos?<\/em><\/p>\n<p><em>Dessa orat\u00f3ria e eloqu\u00eancia &#8211; quais o m\u00e9rito e cr\u00e9dito, o mando, o m\u00f3bil? De onde fura a fonte? Diga-se: valor. O altamente impessoal, quer dizer, o personalissimamente profundo. Da cauta, recolhida verdade do sentimento &#8211; era o que se externava &#8211; veem\u00eancia \u00e9tica, a sinceridade mais descoberta e em f\u00e9. T\u00e3o a fio mormente seu racioc\u00ednio, tanto mais a emo\u00e7\u00e3o legal certeira. Ten\u00eancia. Integro, falava com uma autoridade; a de quem sabe ser vedor puro e por vezes pasmo da pr\u00f3pria e movida grandeza. Retitude permeio e a fim, enraiz de convic\u00e7\u00e3o, sem regateio ou pre\u00e7o. Devo\u00e7\u00e3o \u00e0 di\u00e1fana carne moral dos princ\u00edpios. Mas \u00e0 base ent\u00e3o &#8211; a ang\u00fastia pelo bem comum, a paix\u00e3o da P\u00e1tria. Esse, dado a ver, o segredo do orador Jo\u00e3o Neves da Fontoura. Alma exercida, disse. E cora\u00e7\u00e3o. Cora\u00e7\u00e3o, \u00e9 indispens\u00e1vel; todos sentimos por qu\u00ea. O dever, mesmo, vem dele. Entanto que dever e pudor compelem-no a pelejar oculto.<\/em><\/p>\n<p><em>Volto. Vai para 30 anos. Vim aqui, por causa de um pr\u00eamio, tinha de fazer discurso, cheguei t\u00edmido e cedo. Dei no sagu\u00e3o com grupo de acad\u00eamicos. Deles, um, talvez n\u00e3o o mais pr\u00f3ximo, endireitou para mim. (&#8220;Um acaso? Uma coincid\u00eancia?&#8221; &#8211; ele \u00e9 quem indaga, noutra ocasi\u00e3o e por diferente passo, em de seus livros: &#8220;Melhor \u00e9 acreditar que uma harmonia secreta domina&#8230;&#8221; &#8211; conclui.) Encontr\u00e1vamo-nos, primeira vez. Disp\u00f4s: &#8211; &#8220;Vai o poeta tomar ch\u00e1 conosco.&#8221; Subimos, me apresentou aos pares, de mim curou todo o tempo. (Lembro-me: Adelmar Tavares, af\u00e1vel, glosava-me o &#8220;&#8230; nome certo para poeta&#8230;&#8221; -; guardei, tudo quanto h\u00e1 com nomes me apanha.) Em 29 de junho de 1937. E, a 12, ele, Jo\u00e3o Neves, tivera posse, apresentando sobre Coelho Neto estudo cr\u00edtico abarcador, com achados, perdur\u00e1vel por subst\u00e2ncia e senso. &#8220;Assim, ter\u00e7ando motivo rigorosamente liter\u00e1rio, v\u00f3s &#8211; o expoente, &#8211; provais quanto merecem e t\u00eam direito, as individualidades da vossa esmerada categoria, ao conv\u00edvio acad\u00eamico, selecionador e acertado&#8221; &#8211; sa\u00fada-o Fernando Magalh\u00e3es. (Expoente &#8211; e m\u00e1ximo &#8211; de um g\u00eanero; contudo como aspado &#8220;expoente&#8221; inajeitadamente quem-sabe se balanceasse, usando por vezes intitular modo curto a entidade: &#8220;Academia Brasileira&#8221;; e entretanto, j\u00e1 pois ainda antes das &#8220;MEM\u00d3RIAS&#8221;, pondo rancho arriba nas Letras do pa\u00eds.) E estava, eu disse, em sua doce lua com a Academia? (Mas, se sempre esteve, melenluarado e dos mais, tais querer e apre\u00e7o prestava \u00e0 Casa&#8230;) Me lembro &#8211; tributava jovial rever\u00eancia ao mestre Ant\u00f4nio Austreg\u00e9silo, outrora seu m\u00e9dico. Relembro, mais, Ataulfo, Roquette, M\u00facio, Alceu&#8230;? E eu enxergava o tido her\u00f3i &#8211; aqu\u00e9m \u00cc nas apar\u00eancias: corriqueiro, tr\u00eafego prazenteiro, leve, leviano que qual? Mais lembro! Tudo o que era, a olhos cheios, uma coisa &#8211; caseira, desusada, despercebida: bondade. O que ele endere\u00e7ou, a uns e outros, natural e \u00e1gil, toda a vida. N\u00e3o adamantino: barro. Mas do melhor humano. Sua real simpatia humana, ativa, principal. Ele era bom. Ser\u00e1 que faz ainda sentido a palavra?<\/em><\/p>\n<p><em>Semanas mais, deu-se-nos nova min\u00facia &#8211; senha ou casualidade?<\/em><\/p>\n<p><em>(E ajuntemos delas, que \u00e9 como a vida se faz.) Tudo o que, ali\u00e1s, tutameias perip\u00e9cias, se passava nas ocasi\u00f5es t\u00e3o avulso, cab\u00edvel sem anteced\u00eancia nem consequ\u00eancia, que p\u00f4de me parecer at\u00e9 enganoso, fora de esquema, lapsos de improbabilidade; s\u00f3 no futuro iriam assentar nexo. Foi, foi que eu vinha distra\u00eddo pela Avenida e sem rumor esbarrou \u00e0 beira de mim um carro, algu\u00e9m cordial falando-me: &#8211; &#8220;Aonde vai o poeta?&#8221; Era, claro, Jo\u00e3o Neves. Me fizeram subir &#8211; ele estava com Oleg\u00e1rio Mariano e, por est\u00fardio que se tenha, jamais me acontecera convoca\u00e7\u00e3o do jeito! &#8211; levaram-me a casa. No caminho&#8230; bem: &#8211; \u201cVoc\u00ea um dia ser\u00e1 tamb\u00e9m acad\u00eamico&#8221; &#8211; sisudo emitiu. &#8211; \u201cMas, mais tarde&#8230;&#8221; &#8211; retomou-se. Mesmo muito mais tarde (disto n\u00e3o sei se riu, do anal\u00f3gico) comentei: &#8211; \u201cNa terceira vez, o sr. me i\u00e7ou foi a chefe de seu Gabinete&#8230;&#8221; E \u00e9 epis\u00f3dio a contar; tanto dele revela.<\/em><\/p>\n<p><em>Vem de mais de 20 anos. Jo\u00e3o Neves, at\u00e9 l\u00e1, percorrera muito, incluso nos espa\u00e7os diplom\u00e1ticos: membro da Delega\u00e7\u00e3o do Brasil \u00e0 II Reuni\u00e3o de Consulta dos Ministros das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores das Rep\u00fablicas Americanas, em Havana; Embaixador em Miss\u00e3o Especial a Cuba e ao Panam\u00e1; e Embaixador do Brasil em Portugal. Eu, de mim eu andara por Alemanha e Col\u00f4mbia, e agora, na Secretaria de Estado, tomava conta do Servi\u00e7o de Documenta\u00e7\u00e3o, valha dito, em taipa no meu hipogeu. Soube, vago, que Jo\u00e3o Neves da Fontoura ia ser o Ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores. E &#8211; vede que homem. Vai, vai, um dia, o, saudos\u00edssimo, Embaixador Orlando Leite Ribeiro, Chefe do Departamento de Administra\u00e7\u00e3o, Chefe meu, me mostrou (- &#8220;Sabe de quem \u00e9 esta letra?&#8221;) tira de papel com o meu nome. Era uma escolha, acontecia meio alg\u00e9brica, despessoal, certo modo abstrata. Escutai-me.<\/em><\/p>\n<p><em>Em dadivada p\u00e1gina das &#8220;Mem\u00f3rias&#8221;, das que me honram maior e comove-me, p\u00f5e ele o fato &#8211; de outra margem. E: &#8220;Rosa \u00e9 um dos meus mais novos amigos. (&#8230;) Quando tive de escolher o chefe do meu gabinete, no Governo Dutra, inclinei-me por ele, por for\u00e7a da chamada &#8216;dupla vista&#8217;. (&#8230;) Dou muita import\u00e2ncia \u00e0s pequenas coisas; mais do que \u00e0s grandes.&#8221; J\u00e1 em artigo, num seman\u00e1rio, ele publicara: &#8220;Para a chefia do gabinete convidei o ent\u00e3o 1\u00ba Secret\u00e1rio Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa. N\u00e3o o conhecia bem, mas, num lampejo ocasional, ele me apareceu como a pessoa de que precisava junto de mim.&#8221;<\/em><\/p>\n<p><em>Ent\u00e3o explico. Nada quase corre simples, nesses casos, depois tremeiam-se lembran\u00e7as e contralembran\u00e7as; e h\u00e1 que, se o destino quer e faz, aplica luxo de lances, ataca por linhas simult\u00e2neas &#8211; disto sei recheados exemplos. O que ele grava nas &#8220;Mem\u00f3rias&#8221;, certo a certo, deu-se. Mas houve mais, conflu\u00eancia, e eis aqui Jo\u00e3o Neves reavulta. Se bem que conhecedor de funcion\u00e1rios \u00e0 altura no Itamaraty, ele, jogando seguro, pediu a Leite Ribeiro indica\u00e7\u00f5es (e, com um e outro, confirmei comprovada essa conversa). Encomendava: &#8220;algu\u00e9m que, chefe de gabinete, n\u00e3o se ensaiasse &#8216;emin\u00eancia parda&#8217; ou &#8216;ministrinho&#8217; arrogando-se a ministran\u00e7a&#8230;&#8221; Leite Ribeiro apontou diversos. &#8220;Mas: &#8216;&#8230; e que entrasse para a chefia com atitude de esp\u00edrito igual \u00e0 de quem sai&#8230;&#8221; Vindo ora a mim a vez, atentai para o que Jo\u00e3o Neves por cima perguntou. &#8211; &#8220;\u00c9 de que Estado?&#8221; &#8211; &#8220;Minas.&#8221; &#8211; &#8220;Fico com ele!&#8221; Assim considerava a minha m\u00e1tria p\u00e1tria, \u00e0 qual devesse tamb\u00e9m pelo sangue, por sua av\u00f3 materna. A ela se reconhece unido e grato: &#8220;Visitando muitas vezes Minas, a\u00ed por volta de 1929 e 1930, e falando ao povo em com\u00edcios apaixonados, nunca deixei de meditar sobre os insond\u00e1veis ju\u00edzos da Provid\u00eancia: eu tinha ido dez anos antes \u00e0quela bendita terra buscar um pouco de sa\u00fade&#8230;&#8221; Prezava n\u00e3o t\u00e3o-s\u00f3 &#8220;a do\u00e7ura daqueles ares de montanha&#8221;; mas pr\u00f3pria a gente: &#8211; &#8220;Voc\u00eas, mineiros, s\u00e3o diferentes de todo-o-mundo&#8230;&#8221; \u2013 repetia; apreciava mesmo &#8220;as trag\u00e9dias mudas da pol\u00edtica mineira.&#8221; Assaz confalasse o mote de COELHO NETO: &#8220;A terra vener\u00e1vel de Minas, terra de abund\u00e2ncia e de hospitalidade, f\u00e9rtil e am\u00e1vel como o doce e generoso pa\u00eds quenanita&#8230;&#8221; E, pois, dela nunca poderia ser dito duvidador ou menos amigo.<\/em><\/p>\n<p><em>Desoferecido foi que fiquei, peado quase. A um mestre achei de pedir conselho, ao Embaixador Le\u00e3o Velloso, o Ministro que deixava a pasta. &#8211; &#8220;Que fazer para ser um chefe de gabinete?&#8221; Ele, coloidalmente bondoso e dono de curtida sabedoria, n\u00e3o \u00e0-toa vivera anos na China. Ainda assim primeiro se pasmou, um \u00e1timo. Acudiu-me, por\u00e9m com fino sorriso adequado: &#8211; &#8220;Sempre trate de n\u00e3o chegar depois dos outros. E de mais n\u00e3o precisa, quem \u00e9 capaz de fazer essa pergunta&#8230;&#8221; Nem tanto. Desde cedo, apenas, tamb\u00e9m eu aprendera que &#8220;o s\u00e1bio fia-se menos da sol\u00e9rcia e ci\u00eancia humanas que das opera\u00e7\u00f5es do Tao&#8221;. Muito junto do braseiro, gente h\u00e1 \u00e0s vezes que n\u00e3o se aquece direito, mas corre risco de sapecar a roupa. Eu gosto do amarelo. Talvez enfim nunca pudesse ter sido chefe de gabinete, de ningu\u00e9m; salvante mesmo s\u00f3 de um Jo\u00e3o Neves da Fontoura.<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o que para preposto ca\u00e7asse ele homem de capim, an\u00f3dino, esmorecido; estimava ao inv\u00e9s a franca contesta\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia. Disso intu\u00ed nota, ligeiro. Contava eu aprender primeiro suas quer\u00eancias e movimentos: assunta-se o leopardo \u00e9 de dentro da jaula. Mal me deu tempo. Mandara a despacho um decreto, sem que eu o visse; o que, em si, importava nada. Apenas, esse ato &#8211; e era, menina-dos-olhos, o que criou o &#8220;Curso de Prepara\u00e7\u00e3o \u00e0 Carreira de Diplomata&#8221;, uma das conquistas institucionais da administra\u00e7\u00e3o Dutra e da gest\u00e3o Neves da Fontoura &#8211; suprimia, de golpe, os concursos diretos, deixando penivelmente por baixo os candidatos do interior, dos Estados. Vim estouvado opor-me; riscou-se o quadro a corisco, feito raspar de garrotes em escaramu\u00e7a. Desfechou-me: &#8211; &#8220;Algu\u00e9m de Barbacena ou Cordisburgo?&#8221; &#8211; &#8220;Ou de Cachoeira, por exemplo&#8230;&#8221; &#8211; tive de repontar. &#8211; &#8220;Isso nunca acontece!&#8221; &#8211; ele revirou. &#8220;Aconteceu comigo&#8230;&#8221; &#8211; pus ponto. Digo, pontuou ele, sussurrado s\u00f3, numa de suas rea\u00e7\u00f5es rapid\u00edssimas: &#8211; &#8220;Talvez n\u00e3o seja mesmo democr\u00e1tico&#8230;&#8221; Solil\u00f3quio perempt\u00f3rio. O Ministro pediu de volta o decreto, para modifica\u00e7\u00e3o; manteve o concurso de provas, excepcional e paralelo ao Curso, inventou bolsas de recurso aos estudantes desprovidos.<\/em><\/p>\n<p><em>Sei, nesse entestar ficamos de verdade ligados. Descobrindo tamb\u00e9m que ele era, por const\u00e2ncia e excel\u00eancia, o democrata. Creio n\u00e3o ter encontrado outro assim inerentemente aut\u00eantico. Ideal, esp\u00edrito, sentir democr\u00e1tico, possu\u00edam-no &#8211; como respirada quantidade, fundamento e arraigo, sua caracter\u00edstica. Por a\u00ed sofria, pensava, acertava ou se enganava, persistia. Escarafunchai-lhe a vida, e verificareis. Ralavam-no a engulho quaisquer conota\u00e7\u00f5es de regimes superados. Chegou a mandar proceder a original escrut\u00ednio no Itamaraty, a respeito de mudan\u00e7a de hor\u00e1rio. Seu conviver demonstrava, porejante, a ingente cren\u00e7a. A mim, a quem o conceito da soberania do povo suscitava ainda visos meu tanto te\u00f3ricos, ensinou-me que ela tem outrossim carne e canseiras, tarimba e p\u00e3o, consola\u00e7\u00e3o; mas, principalmente, certeza criadora.<\/em><\/p>\n<p><em>E esse &#8211; revolucion\u00e1rio, o removedor, exemplar de cultura e humanidade, dado ao esfor\u00e7o progressivo e aberto a quanto de construtivo, visando permanentemente ao bem da comunidade, admitindo a coexist\u00eancia honesta das ideologias &#8211; desatentou na tem\u00e1tica da transforma\u00e7\u00e3o social, dela se desavisou ou dessentiu-a, a grau de merecer tacha e pecha, n\u00e3o andou com o tempo?&#8221; &#8220;A idade que vivemos \u00e9 a da coopera\u00e7\u00e3o niveladora&#8221; &#8211; proferiu. Repetia-me cita\u00e7\u00e3o: &#8220;Vivemos no seio de uma grande injusti\u00e7a&#8230;&#8221; Detestava toda sorte de usurpa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o toleraria o m\u00ednimo retrocesso, o rejeito de nenhuma das duras e graduais aquisi\u00e7\u00f5es nesse plano, no qual somente n\u00e3o colocava a urg\u00eancia como um optativo categ\u00f3rico. Temesse, h\u00e1 de ser, qualquer s\u00f4frega dissolu\u00e7\u00e3o do genu\u00edno no aleat\u00f3rio, receava o destabocamento, caos, a m\u00e1 ordem. De feita, apostrofou-me: &#8211; &#8220;Voc\u00ea pensa que a gente vive no C\u00e9u?!&#8221; Desde menino destinado, e desde a adolesc\u00eancia entrado \u00e0 lida partid\u00e1ria, e por uma carreira de seis dec\u00eanios na estacada, prisioneiro de c\u00edvicos intuitos &#8211; confez-se aos desp\u00f3ticos valores pol\u00edticos da a\u00e7\u00e3o em superf\u00edcie, sem pausa para esfriar-se do tumulto e da for\u00e7a adquirida &#8211; incicatrizado investindo sempre o imediato &#8211; e portador de um alarme.<\/em><\/p>\n<p><em>Jo\u00e3o Neves vinha \u00e0 dire\u00e7\u00e3o dos neg\u00f3cios sabendo o aranzel do of\u00edcio. Dominara encargos e responsabilidades de sua miss\u00e3o e enorme experi\u00eancia diplom\u00e1tica, de 1943 a 1945, em Lisboa, neutra, posto crucial pelo entrejogo de meias manobras, press\u00f5es, urgidas decis\u00f5es ponderosas. Comandante, agora, e por duas vezes, desestreitado e no cluso, deu-se \u00e0 faina de nossas rela\u00e7\u00f5es internacionais: de maneira forra, l\u00facida, objetiva, sutil, decente e oportuna. Sei que, a pensar e realizar, ele se adiantava em toda iniciativa e dignificava qualquer rotina. Documentado est\u00e1 o que p\u00f4de, conservado nos rascunhos e registros. Apenas, o meu Itamaraty, mans\u00e3o de equil\u00edbrio e mourejo, fiel e febril, muito mais do que fora se cr\u00ea, e tamb\u00e9m uma Casa hier\u00e1rquica, timbra seus assuntos &#8211; n\u00e3o por cavilosidade, culpas, m\u00e1-f\u00e9, sen\u00e3o rigor de precau\u00e7\u00e3o essencial, modera\u00e7\u00e3o co-harmonizadora e universal regra espec\u00edfica de estilo &#8211; pelo selo de &#8220;secretos&#8221;, &#8220;confidenciais&#8221; ou &#8220;reservados&#8221;. Do que ele fez, sem subservir ou omitir-se, sem falsimilhan\u00e7as, me penetro. Disto n\u00e3o darei parte; nem serei quem deixe de deix\u00e1-lo sub rosa. Mas aqui inscrevo, como premissa honrada e sustentada, a que, a 1o de fevereiro de 1951, em discurso de posse, foi seu juramento: &#8220;Conv\u00e9m tornar expl\u00edcito que, na condu\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica externa, o Governo &#8211; acima de tudo &#8211; velar\u00e1 para que aos interesses fundamentais do Brasil n\u00e3o se sobreponham, em quaisquer circunst\u00e2ncias, interesses alheios.&#8221;<\/em><\/p>\n<p><em>Reevoco-o: vejo que trabalha, trabalha, \u00e0 m\u00e3o-cheia entusiasmada, no ret\u00e2ngulo-arena de seu gabinete. Solto l\u00e9pido, servi\u00e7al que nem jovem secret\u00e1rio-de-embaixada, e a todo tempo impart\u00edvel da exata dignidade, e da amenidade de irm\u00e3o da gente, ing\u00eanita gentileza. Fazia conta do bem-estar e das necessidades ainda que de servidores infim\u00edfimos. Manipulador agudo do concreto, descia, pr\u00e1tico, a sugerir meios e aconselhar-nos na execu\u00e7\u00e3o das tarefas; e eu me envergonhava da minha entorpecedora e distanciadora precis\u00e3o do absoluto, nas ocasi\u00f5es em que, enrolado ele mesmo a debater tropel de assuntos, em reuni\u00f5es, tomava instante para passar-me expeditivos bilhetes de aux\u00edlio, &#8211; sol\u00edcito espont\u00e2neo, valedor constante, servidor de seus servidores. Dif\u00edcil de quadrar-se a tolhedores m\u00e9todos, aparentemente um absorvedor individualista, lia tudo, tudo capturava e examinava, produzia e orientava, sem cessar, ditava com proba avidez. Arremetia grandes olhos a qualquer problema, n\u00e3o enjeitando a farinha por grossa nem o angu por duro, jamais avaro de si. Nunca o vi bocejar; se estremunhava era como despertado gato. Seguro de modos trastando exercitado autodom\u00ednio, inimigo de \u00eanfases, dramaticidade ou impon\u00eancia, nem com ensombrar meio rosto se tra\u00eda, ou s\u00f3 em quebrado de segundo, no semicerrar o cenho; quando indicado, ensurdecia-se um pouquinho mais, polidamente. Temi, vez, que, devido a raso descoincidir de \u00edndoles e vistas, estivesse-o menos socorrendo que estorvando, e o interpelei: &#8211; &#8220;Ministro, como \u00e9 que o sr. me suporta?&#8221; (Nessa manh\u00e3, de seguida, espalhara eu alguns de seus projetos, tendo-me como isolador ou mau condutor contra as descargas de bateria poderosa.) Retrucou-me: &#8211; &#8220;Porque n\u00f3s nos completamos&#8230; Voc\u00ea \u00e9 a minha consci\u00eancia mineira&#8230;&#8221; Por certo assim ministrava-me sua natural generosidade, propinado autom\u00e1tico agrado de pol\u00edtico; vede, por\u00e9m, que na tirada predominava pico do sense of humour, absolutamente indispens\u00e1vel e uma de suas riquezas. Senhor na indubiedade, sem intricantes vacila\u00e7\u00f5es, destorcido era que puxava pelos mais complexos fatos; nem se furtando de abrir janela ao vento. Discorria-os a fino e gume ardor inteligente, seja sobre a t\u00e1bua da justa medida e bom senso. Sabia esperar, conquanto suponho achasse que esperar \u00e9 dar-se em hipoteca. Nada desandava, entretanto, nem desconchavando mesmo a quem n\u00e3o afeito a esse ritmo e velocidade de esp\u00edrito. Intelig\u00eancia que ao auge respl\u00eandida se exercia, quando no aperreio do arrocho e j\u00e1 a horas de estalar, sem beirada o prazo. Dele ent\u00e3o se inesperava: fa\u00edsca, a in\u00e9dita ideia, terminante, ou a \u00fatil defini\u00e7\u00e3o, saltada acima, brasa. Ainda mais se em contenda. Parece mesmo que, para com toda a efic\u00e1cia fixar-se a escogitar coisa do correr comum, primeiro carecesse ele de atribuir-lhe sentido adverso hostil, para acometida e de vencida.<\/em><\/p>\n<p><em>&#8220;Mas meu signo era claramente o da luta&#8221; &#8211; vem descobre. Decerto. Seu era o signo do Escorpi\u00e3o, sob cujo influxo hoje transpiramos, campo-de-for\u00e7a de Marte. Scorpio reparte a seus filhos, com senso extra dos deveres e for\u00e7a de vontade tremenda, a pugnacidade decidida, intrepidez, gosto da rusga e da guerra. Fazem aos punhados inimigos. S\u00e3o pol\u00edticos perigosos. O sujeito do Escorpi\u00e3o desfaz no risco, n\u00e3o alui por temor nenhum, defende-se atacando, nutre-se do conflito, dele extrai renovada subst\u00e2ncia ao contr\u00e1rio de despender energia nervosa, resiste at\u00e9 \u00e0 morte. Jo\u00e3o Neves, a gente encontrava-o amofinado, perrengue, pessimista, e j\u00e1 se sabe: embara\u00e7ava-o a apatia dos entreatos pac\u00edficos, atolava-se na tranquilidade. Ele n\u00e3o via o sol nos belos brejos, horizontais. Depois, a gente voltava, e eis ora o homem sem achaquilhos e o acess\u00f3rio, s\u00e3o, alegre esportivamente, suas for\u00e7as todas enfeixadas. Pois ent\u00e3o, \u00e9 que de novo em patri\u00f3tica briga &#8211; era o realizar-se e renitir &#8211; o entrevero! Disso deixa conhecimento: &#8220;a poesia da peleja&#8221;, &#8220;o sabor agrad\u00e1vel dos embates&#8221;. Define-se? &#8220;Por uma longa experi\u00eancia, estou convencido de que a consci\u00eancia do perigo e a certeza de venc\u00ea-lo influem uma grande paz nos esp\u00edritos atribulados.&#8221; Da\u00ed mais sua filosofia, ou, melhor, Weltanschauung, resoluta cosmovis\u00e3o, que era j\u00e1 a de J\u00f3, de Uz. Diz: &#8220;Toda seguran\u00e7a \u00e9 aparente, todo bem-estar terrivelmente interino.&#8221; &#8220;A escolha e a luta s\u00e3o nossas insepar\u00e1veis companheiras.&#8221; Portanto; &#8220;andava sempre, como se diz, com sete sentidos&#8221;. &#8220;A vida \u00e9 uma perp\u00e9tua emboscada.&#8221; S\u00f3 que com ainda escorpi\u00f4nica sensatez, mas nada de sup\u00e9rfluas cautelas; e humano n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de paradoxal? Refrega durante e em avante, sim, desembu\u00e7ado respeito pelo contendor. Nem o est\u00fardio potencial de \u00f3dio do Escorpi\u00e3o podia com sua n\u00e3o menos inata magnanimidade.<\/em><\/p>\n<p><em>Ent\u00e3o &#8211; e ele e Vargas? E ante Aranha? A d\u00favida pertine e o ponto pertence, cortando aqui desconversa, porquanto dentre bando e numeroso escol &#8211; os brasileiros grandes do Rio Grande &#8211; plano adiante inscritos na mesma moldura: tr\u00edade que em conjunto giro ins\u00f3lito a Hist\u00f3ria nos trouxe. Impende a pergunta. Resposta, Deus sabe, s\u00f3 sou contador. V\u00ednhamos, por exemplo, de visitar Oswaldo Aranha &#8211; fe\u00e9rico de talento, brilho, genialidade, uai, e daquele total conseguido esculpir-se em ser &#8211; e Neves pauteou: &#8220;Voc\u00ea estava extasiado, empolgado&#8230;&#8221; Mas vi e j\u00e1 advertira em que n\u00e3o menos cedia ele \u00e0 cordial fascina\u00e7\u00e3o. &#8211; &#8220;Sagarana (sic sempre), cuida disto para o Jo\u00e3o&#8230;&#8221; &#8211; telefonava-me Aranha alguma vez. Prezavam-se e queriam-se, alta, gauchamente; a despeito de quaisquer despiques, queixas, rixas, unia-os a verdade da amizade. Get\u00falio Vargas, muito fal\u00e1vamos a seu respeito, compondo uma nossa tese de controv\u00e9rsia. Meu interesse, sincero, pela imensa e imedida individualidade de Vargas, motivava-se tamb\u00e9m no querer achar, em s\u00e3 hip\u00f3tese, se era por dom cong\u00eanito, ou de maneira adquirida mediante estudo e adestramento, que ele praticava o wu wei &#8211; &#8220;n\u00e3o-interfer\u00eancia&#8221;, a norma da fecunda ina\u00e7\u00e3o e repassado n\u00e3o-esfor\u00e7o de intui\u00e7\u00e3o &#8211; passivo agente a servir-se das excessivas for\u00e7as em torno e delas recebendo tudo pois &#8220;por acr\u00e9scimo&#8221;. &#8211; &#8220;Enigma nenhum, apenas um fatalista de sorte&#8230;&#8221; &#8211; encurtava Jo\u00e3o Neves, experimentando f\u00e1cil dissuadir-me. Mas, apto ele mesmo ao mist\u00e9rio, sens\u00edvel \u00e0s c\u00f3smicas correntes, \u00e0 anima mundi antiga, teria de hesitar, de vez em quase, tamb\u00e9m a mem\u00f3ria cobradora beliscando-o. &#8211; &#8220;De fato, o Get\u00falio d\u00e1 estranhezas, nunca ofegou ou tiritou, nem se lastimava de frio ou calor, que n\u00f3s outros todos padec\u00edamos, nada parecia mortific\u00e1-lo&#8230;&#8221; &#8211; concedia-me, assim, pequenas observa\u00e7\u00f5es. Logo, por\u00e9m, sacudia-se daquilo. Fazia pouco de minha admira\u00e7\u00e3o-esimpatia por Vargas, sem com ela se agastar. Diferen\u00e7a fundamental de temperamentos em contraste &#8211; o ousado opugnador sem coleios e o elaborador expectante do contempo &#8211; de incerto modo inconciliava-os: por um lado insofrido espenejar-se contra visco, de outra banda quieto apartar-se de picadas. Voltas e contravoltas de longo acontecer, as v\u00e3s vicissitudes, fizeram o resto. Ou injun\u00e7\u00f5es de foro \u00edntimo, p\u00fablicas concep\u00e7\u00f5es diversas. Aproxima\u00e7\u00f5es, afastamentos, reaproxima\u00e7\u00f5es, como termos peri\u00f3dicos, patenteiam nada de outro que uma forma do &#8220;kaempfende Liebe&#8221;, de afeto combatente. Demais, n\u00e3o se pisaram nem cuspiram nos ponchos, haveriam de entender-se, dia ou dia, em fim; j\u00e1 n\u00e3o pelo h\u00e1bito caro\u00e1vel e em tradi\u00e7\u00e3o cavalheiresca, mas por vincula\u00e7\u00e3o predeterminada e obedecida, acima de dessemelhan\u00e7as ou reverg\u00eancias no obscuro e amb\u00edguo das causas transit\u00f3rias. Lembremo-nos sempre do que ainda n\u00e3o houve. Retirou-lhes a trag\u00e9dia a extens\u00e3o dessa subst\u00e2ncia amorfa e escolhedora &#8211; o tempo. Esta hor\u00e1ria vida n\u00e3o nos deixa encerrar par\u00e1grafos, quanto mais terminar cap\u00edtulos. Entanto que, como vi\u00e1vel esteira do pr\u00f3prio tempo, s\u00f3 nos resta, a n\u00f3s, cegos rastreadores, o desconjuntado flou de uma m\u00e1 montagem. Recordo: &#8220;As coisas est\u00e3o amarradinhas \u00e9 em Deus&#8221; &#8211; entimema \u00fanico que punha em acordo minhas Vov\u00f3 Chiquinha, de Tra\u00edras, no Rio das Velhas, e Vov\u00f3 Graciana, de um povoado do Pared\u00e3o do Urucuia.<\/em><\/p>\n<p><em>Mesmo em meio de pol\u00edtica.<\/em><\/p>\n<p><em>Salteai-o nos tomos de cr\u00f4nica comentada &#8211; &#8220;Borges de Medeiros e seu Tempo&#8221; e &#8220;A Alian\u00e7a Liberal e a Revolu\u00e7\u00e3o de 1930&#8221; &#8211; em que Jo\u00e3o Neves da Fontoura nos estende texto digno de estadista sarado, de marca. Asseado depoimento, razoado a rigor de cunho positivo, nas formas da l\u00f3gica; entrediz-nos entanto, quando por zelo explanador ou af\u00e3 de interpreta\u00e7\u00e3o, o titubear do autor, testemunha ou personagem, frente ao desconforme improviso dos casos e rente ao ultraprop\u00f3sito de acontecimentos. Tal quer-se transparente para objetividade e acur\u00e1cia &#8211; e a transpar\u00eancia pressup\u00f5e fundo luminoso &#8211; t\u00e3o logo tem de citar os &#8220;altos ju\u00edzos&#8221;, os &#8220;des\u00edgnios&#8221; da Provid\u00eancia, seu &#8220;imp\u00e9rio&#8221;, o &#8220;papel&#8221; que ela lhe distribui. Alega antecipa\u00e7\u00f5es, n\u00e3o pode &#8220;desviar o pensamento de certas for\u00e7as imponder\u00e1veis&#8221;, reitera men\u00e7\u00e3o de outroversas coincid\u00eancias numerol\u00f3gicas. Duvida enfim do plano emp\u00edrico: &#8220;Sonhos ou realidade? Ser\u00e1 que a gente v\u00ea mesmo, com exatid\u00e3o, as pessoas e as coisas?&#8221; Nem estamos em Alexandria ou \u00c1sia, mas soletrando ver\u00eddico relato de um americano latino, de ideias ordenadas.<\/em><\/p>\n<p><em>Supersticioso, sim; \u00e9 claro. Supersti\u00e7\u00e3o n\u00e3o preconceito, o ilus\u00f3rio; antes quase poesia. Percep\u00e7\u00e3o e arejo, defensivo ps\u00edquico automatismo, uma respira\u00e7\u00e3o cut\u00e2nea do esp\u00edrito, talvez. Soubesse que poesia \u00e9 rem\u00e9dio contra sufoca\u00e7\u00e3o. (Acompanhei-o, primeira sexta-feira, aos franciscanos, ach\u00e1vamos benigno gesto sob apaziguadoras signas de ensalmo. N\u00e3o empreendia longa viagem, sem \u00e0 \u00faltima folga visitar igreja, mas assim mobilizava-se era para o que der e vier do agir. De outra levada, volt\u00e1vamos de Petr\u00f3polis, rodamos ao outeiro de S\u00e3o Bento, aplicaram-nos os monges a b\u00ean\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Br\u00e1s, 3 de fevereiro, acesas as velas cruzadas, era como em remoto em meu Cordisburgo sobre o Ribeir\u00e3o-da-On\u00e7a, a gente reentrava a intacta confian\u00e7a e inf\u00e2ncia.) Sabe-se disto &#8211; que justo os rijos fazedores, de maneira calada ou confessada t\u00eam de ser no particular suscept\u00edveis ao mais, captem os cantos de todos os galos. Tudo, pela metade, \u00e9 verdade. Os extremos j\u00e1 de si sempre se tocam, antes que tese e ant\u00edtese se proponham.<\/em><\/p>\n<p><em>Mas, esse tom intuicional, aquela atmosfera passada de efl\u00favios, compertencem ao que se espera de curr\u00edculo descrito por homem p\u00fablico? Talvez n\u00e3o; tanto nuamente s\u00e3o mesmo \u00e9 da vida.<\/em><\/p>\n<p><em>Salvo dissermos ainda do individido discernis entre obriga\u00e7\u00e3o e voca\u00e7\u00e3o, tend\u00eancia e necessidade. Jo\u00e3o Neves foi pol\u00edtico por encaminhamento, determinismo ambiente, renovados ditames; n\u00e3o por v\u00edcio. Melhor, por recorrente ecologia pessoal como inevit\u00e1vel campo de a\u00e7\u00e3o, a metade est\u00e1tica do fad\u00e1rio &#8211; seu dharma. Estou-lhe no eco: afirma que em pol\u00edtica sempre caminhou e subiu dando as costas aos mais entretidos desejos, at\u00e9 mesmo aos prop\u00f3sitos mais fincados. Dela diz ter sido, &#8220;talvez hereditariamente&#8221;, sua &#8220;fatalidade&#8221;. V\u00ea, nela litigando, a imposta relatividade que a macula &#8211; bem em inten\u00e7\u00e3o, mal necess\u00e1rio. A\u00ed d\u00e1-se outra medida de sua nobreza e rareza. De fato.<\/em><\/p>\n<p><em>Surpreendi-o, ami\u00fade, no vivo. Uma vez, por exemplo, descans\u00e1vamos, especulando disso e daquilo, chegou-se a confronto entre o pol\u00edtico e o artista. Precipitei-me a grado de argumentos e exerc\u00edcio. Neves, repartido absorto, externou-se ent\u00e3o em frases muito planas, n\u00e3o dissertava, recordava. Falou das obras que pudera promover na Cachoeira, de tanto que no Brasil precisava de urgente ser feito, imaginava humildes enormes realiza\u00e7\u00f5es. De ato, entendi. O que ele pretendia e perseguia era a pol\u00edtica substantiva, seu discreto c\u00edvico exerc\u00edcio e trabalhosa consecu\u00e7\u00e3o, sacrif\u00edcios pelo cabedal coletivo, a concreta causa do povo: culto aprendido, desde quando contemplava famoso manifesto de J\u00falio de Castilhos, impresso em cetim branco, num quadro no escrit\u00f3rio do Pai &#8211; que ele acompanhava, a cavalo, em suas idas de Chefe local do munic\u00edpio. Colocava-a alta, mas na escala dos deveres, sem refugar nem reter seus aspectos subalternos.<\/em><\/p>\n<p><em>Prov\u00e1vel por\u00e9m da\u00ed tamb\u00e9m decorram as constantes negativas que o embara\u00e7aram na fal\u00e1cia das situa\u00e7\u00f5es vitoriosas: um sobrevir de empecilhos &#8220;between the cup and the lips&#8221;, entre a colher e a boca perdendo-se a sopa, e o obstinado opor-se da perf\u00eddia imanente \u00e0s coisas, &#8220;die Tuecke des Objekts&#8221;. Cabia-lhe, nas campanhas, &#8220;receber os primeiros e os \u00faltimos golpes&#8221;, entanto que, &#8220;na hora das honrarias e dos postos&#8221;, sofrer as &#8220;injusti\u00e7as e preteri\u00e7\u00f5es&#8221; &#8211; diz.<\/em><\/p>\n<p><em>Tenho que o onerasse o handicap de excessiva sensibilidade, com a mobilidade, mercurial, conseq\u00fcente; mais alguma incontida impaci\u00eancia de idealista. Faltavam-lhe, al\u00e9m da gana irracional que em vontade-de-poder se revela, blindagens grossas, densidade epid\u00e9rmica, o quanto de macicez para o desempenho do calibanato. Da sensibilidade e intelig\u00eancia tem-se sempre de pagar ingrato pre\u00e7o.<\/em><\/p>\n<p><em>Por contra, que formid\u00e1vel campeador, quando na oposi\u00e7\u00e3o, aquelas mesmas aparentes limita\u00e7\u00f5es o faziam, com destaque dado e conquistado! O que se pensava dispersivo, pl\u00e1stico e fragment\u00e1rio, resolvia-se em flexibilidade presta, multiplicados meios e \u00f3rg\u00e3os de movimento e ataque. A fartura de antenas sensitivas provia-o de incompar\u00e1vel tino, quase adivinhador. Funcionavam-lhe engenhadas as imaginosas aspira\u00e7\u00f5es, vezesmente, sem relaxe; tanto quanto jogando-o ao arranque de supera\u00e7\u00e3o a pr\u00f3pria experi\u00eancia de reveses. Tremendo, ei-lo, contendor duro, conspirador s\u00e9rio, conferindo for\u00e7a de persuas\u00e3o e evid\u00eancia convincente, inchante fermento; pequeno polegar, malasarte, malino n\u00e3o maligno nem maquiavelhaco, mutuca &#8211; como S\u00f3crates de si mesmo na &#8220;Apologia&#8221; diz-se &#8220;a mutuca de Atenas&#8221; &#8211; ou melhor na pressa n\u00e3o reta das abelhas em voo, \u00e0 m\u00e3o-de-deus-padre de t\u00e1ticas inseguras e certeiros desatinos, fogo em todas as frentes, n\u00e3o lhe importando perda de chumbo ou p\u00f3lvora. Espet\u00e1culo! Franzino a performar seus trabalhos-de-h\u00e9rcules. E, aqui, estamos no v\u00e9rtice do incontest\u00e1vel. Contai-os.<\/em><\/p>\n<p><em>Revede, a etapas, o que dele guarda lasca e garra, e d\u00edvida \u00e0 efic\u00e1cia de sua impuls\u00e3o sustentada exata, \u00e0 ponta extrema. Recitem-se, 29\/30, Alian\u00e7a e Revolu\u00e7\u00e3o; 32 a Epopeia da gente Paulista, que remeteu inadi\u00e1vel em prumo o Brasil; a vit\u00f3ria, 1945, da candidatura Dutra, por ele alevantada (e recusara filar em m\u00e3os a sua, pr\u00f3pria, com manilha e trunfo, posta por Vargas); a campanha mesma pr\u00f3-Vargas, 1950. Mas meramente marcos de geod\u00e9sica, ou, devo, digo, rebojos que mexem \u00e0 flor de correnteza estr\u00eanua. Drede detendo-me de algum ju\u00edzo entre o quer-que de hom\u00f3logo ou d\u00edspar, a\u00ed, eventos e causas. Quem julga? Apreendeu j\u00e1 algu\u00e9m, sobre o fluxo dos fen\u00f4menos e dar-se de valores instant\u00e2neos, a ortografia das tortas linhas altas? Seja sim obediente ent\u00e3o a inten\u00e7\u00e3o &#8211; em que quanta composta coisa se insere, coalesce e coere. Teste-se, no mais severo balan\u00e7o, sem encarecimento, de Jo\u00e3o Neves da Fontoura: n\u00e3o um b\u00e9lico tumultueiro, lansquenete, buscador de vantagens ou construtor de revanches. S\u00f3 o servidor enxuto. Sete-capotes, rompe-gib\u00e3o, tranca-porteiras, angico-branco, ouricuri que a queimada lambe e poupa, quebra-machado, tamboril-bravo. At\u00e9 ao final, montou guarda.<\/em><\/p>\n<p><em>Mas, pol\u00edtica, tempo e modo, mudavam em antes n\u00e3o visto acelerar-se, ultrapassante, enquanto que a idade pegava-o j\u00e1 com meio frias meias m\u00e3os; tanto o viver vai maior e mais ligeiro que a gente. &#8211; &#8220;A vida \u00e9 uma s\u00e9rie crescente de restri\u00e7\u00f5es&#8221; &#8211; falava-me. Rejeitara ainda ser Ministro do Exterior do Governo Kubitschek. Na lonjura as tr\u00e9pitas festas de orador &#8211; e a diminui\u00e7\u00e3o auditiva (dizia-se ele um &#8220;hipoac\u00fasico&#8221;) toda maneira tolher-lhe-ia a tribuna pol\u00eamica. Embora, \u00e0 altura, procurado sempre para opini\u00e3o e conselho, irradiador, prezada mais sua presen\u00e7a condutora. Ent\u00e3o entrou \u00e0 imprensa que nem a outra pali\u00e7ada. Formou de jornalista, dos pontualmente mais atuantes, em artigos e editoriais, cora\u00e7onados, escorridos, acertantes, de destopeteada bravura. Das cole\u00e7\u00f5es de O Globo, por mencionar, estariam de desentranhar-se, desses, volume e volume.<\/em><\/p>\n<p><em>E envelhecia bem; isto \u00e9, tomava posse do passado. O passado tamb\u00e9m \u00e9 urgente. Abriu-o em todas as p\u00e1ginas. Escreveu as &#8220;MEM\u00d3RIAS&#8221;. Narra\u00e7\u00e3o e demonstra\u00e7\u00e3o. O lutador conta &#8211; descreve as passagens de pr\u00f3prias guerras, fama devida&#8230; &#8211; perfila-se. M\u00e1xime. N\u00e3o era homem de n\u00e3o prosseguir, ao sol-entrar, quando a lembran\u00e7a cria exemplo. Fez grande, importante livro. Tirando-o de cadernos, ma\u00e7os de documentos, tanto quanto do tutano da mem\u00f3ria, mesma, objetiva e afetiva, recuo montante. Mais de sua arte de rever e aviventar, forte honest\u00edssima. Fiel \u00e0s amizades e \u00e0s inimizades; leal, acima, \u00e0 verdade, perceba-se. Ivan Lins refere como Jo\u00e3o Neves fiou-lhe a ler os originais e tomou em rigorosa aten\u00e7\u00e3o todas as retifica\u00e7\u00f5es; procedeu tamb\u00e9m assim com outros, igualmente \u00edntegros e fidedignos. Quis ser justo, da\u00ed o escr\u00fapulo e cuidados para com os fatos. Vereis que p\u00f4de falar, em desaparato, do muito que foi, &#8220;a contragosto, e o imenso que n\u00e3o quis ser&#8221;. Seu ethos &#8211; o da era, que come\u00e7a, dos comportamentos a descoberto &#8211; \u00e9 o roteiro esfor\u00e7ado da f\u00e9 e a din\u00e2mica da humildade. A de homem culto: o que sabe pensar. Por outra parte, s\u00e3o as &#8220;Mem\u00f3rias&#8221; livro de que se honrar\u00e1 a nossa cultura. Relede-lo. Jamais enfara; cativa e gratifica, a cada volta; com ele se convive. Tudo p\u00f5e e rep\u00f5e, desenredado, simplificado, pormiudamente humano, com tacto e lisura, tanto bastante. Jo\u00e3o Neves nele confessa-se, espont\u00e2neo e discreto, desimpedido e comedido, como um recibo de entendimento, como o clamor de um cochicho. Vem franquear, a quantos, um fundo de consci\u00eancia, o centro de sua personalidade. Ele mesmo &#8211; transretratado. Direi, escreveu-o para o Ju\u00edzo Final, como todo livro deveria ser escrito.<\/em><\/p>\n<p><em>Seu fervor liter\u00e1rio, ali\u00e1s, se extravasava sempre. Lido, lia em dia, fazendo das leituras a um tempo h\u00famus para a mente e est\u00edmulo \u00e0s ideias que povoavam-lhe aqueles retidos &#8220;territ\u00f3rios \u00edntimos&#8221;. Dividia-os, entanto, prazeroso pleno conversador, nos entremeios da a\u00e7\u00e3o, lembro-o de novo: quaisquer vezes, quando a gente corria &#8211; &#8220;Allons-y!&#8221; &#8211; estradas de Flandres e Holanda, ou passeando s\u00f3s longo-praias de Ipanema e Leblon, ou tomando ch\u00e1 \u00e0 beira do Marne, qual se sob sombra de um pl\u00e1tano \u00e0 borda do Ilissos, quer debaixo de cara\u00edba ou umbu, vendo a covilha ou a chapada.<\/em><\/p>\n<p><em>Nem esque\u00e7o, em Bogot\u00e1, quando a multid\u00e3o, m\u00f3 milhares, estourou nas ruas sua alucina\u00e7\u00e3o, tanto o medonho esbregue de uma boiada brava. Saqueava-se, incendiava-se, matava-se etc. Tr\u00eas dias, sem policiamento, sem restos de seguran\u00e7a, o Governo mesmo encantoado em pal\u00e1cio. \u00c9ramos, bloqueados em vivenda num bairro aristocr\u00e1tico, cinco brasileiros, e penso que nem um rev\u00f3lver. Recorro a notas: &#8220;12.IV.48 &#8211; 22 hs. 55&#8242;. Tiros. Apagamos a luz.&#8221; Mas, o que, com Jo\u00e3o Neves, por sua calma instiga\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o discorr\u00edamos, a rodo, eram mat\u00e9rias pareg\u00f3ricas: paleontologia, filosofia, literatura; ou lembrava tropelias brilhantes de seu Sul, citava o saudoso nosso Dr. Glic\u00e9rio Alves, nobre tipo humano, do melhor ga\u00facho e amigo. E, todavia foi sua determinada e ativa decis\u00e3o um dos ponder\u00e1veis motivos por que a IX Confer\u00eancia se manteve na capital andina, adiante e a cabo.<\/em><\/p>\n<p><em>Sua conten\u00e7\u00e3o derivava do bom gosto, essa forma amen\u00edssima de ren\u00fancia; imolava-se, di\u00e1rio diuturno, com naturalidade. Da\u00ed a gentileza de esp\u00edrito e eleg\u00e2ncia de maneiras &#8211; econ\u00f4mico de corpo mas n\u00e3onadamente mesquinho, petulante ou cosquilhoso &#8211; jamais vulgar nem em desclasse. E a permanente galanteria: portava-se com sua netinha F\u00e1tima como se perante uma lady ou um flirte. E no neto Jo\u00e3ozinho j\u00e1 visse futuro o adulto, seu continuador em renome, renhir, responsabilidades. Sob o afoito combativo, a gente acertava mais, sempre, a tranquila sabedoria do medimento: sophrosyne. N\u00e3o punha contra si em movimento os mecanismos da N\u00eamesis. Era quase como um menino que ele pedia alguma coisa \u00e0 vida. Compreensivo, notava-se pela benevol\u00eancia e de-sobra toler\u00e2ncia &#8211; &#8220;Ningu\u00e9m muda ningu\u00e9m&#8230;&#8221; &#8211; n\u00e3o julgava. Usava e dava a esperan\u00e7a. Imortal \u00e9 o que \u00e9 do sofrido e esp\u00edrito; tudo, abaixo da\u00ed, \u00e9 p\u00f3stumo. As coisas que ele me disse n\u00e3o se afastam com o tempo.<\/em><\/p>\n<p><em>E expande-se: &#8220;&#8230; cada alma vai sentindo, na descida do caminho, a \u00e2nsia de se devotar a deveres mais altos do que as paix\u00f5es p\u00fablicas.&#8221; Tem-se ent\u00e3o, imediato, avan\u00e7ando dos grandes fundos, outra extraordin\u00e1ria personalidade, Arthur da Silva Bernardes, que faleceu s\u00fabito, em meio \u00e0 lida l\u00facida, mas deixando, como por toque de preconhecimento, num derradeiro bilhete: &#8220;O fim do homem \u00e9 Deus, para o qual devemos, preferentemente, viver. Eu, por\u00e9m, vivi mais para a P\u00e1tria, esquecendo-me d&#8217;Ele&#8221; &#8211; pedindo ainda aos amigos, correligion\u00e1rios, e aos de boa-vontade, que com ora\u00e7\u00f5es o ajudassem a resgatar aquela falta.<\/em><\/p>\n<p><em>Jo\u00e3o Neves, t\u00e3o perto o termo, coment\u00e1vamos, suas filhas e eu, temas desses, de realidade e transcend\u00eancia; porque agradava-lhe escutar, ainda que n\u00e3o tomando parte. At\u00e9 que falou: &#8211; &#8220;A vida .\u00e9 inimiga da f\u00e9&#8230;&#8221; &#8211; apenas; ei-Io, ladeira p\u00f3s ladeira, sem querer fim de estrada. Descobrisse, como Plotino, que &#8220;a a\u00e7\u00e3o \u00e9 um enfraquecimento da contempla\u00e7\u00e3o&#8221;; e assim Camus, que &#8220;viver \u00e9 o contr\u00e1rio de amar.&#8221; N\u00e3o que a f\u00e9 seja inimiga da vida. Mas, o que o homem \u00e9, depois de tudo, \u00e9 a soma das vezes em que p\u00f4de dominar, em si mesmo, a natureza. Sobre o incompleto feitio que a exist\u00eancia lhe imp\u00f4s, a forma que ele tentou dar ao pr\u00f3prio e dorido rascunho.<\/em><\/p>\n<p><em>Talvez, tamb\u00e9m, o recado melhor, dele ouvi, quase in extremis: &#8211; &#8220;Gosto de voc\u00ea mais pelo que voc\u00ea \u00e9, do que pelo que voc\u00ea fez por mim&#8230;&#8221; Posso cal\u00e1-lo? N\u00e3o, porque sincero sei: exata estaria, sim, a rec\u00edproca, tanto a ele eu tivesse dito. E porque deve ser esta a comprova\u00e7\u00e3o certa de toda verdadeira amizade &#8211; impreterida a justi\u00e7a, na medida afetuosa. Acredito. Nem creio destoante ou mal assentado, numa solene inaugura\u00e7\u00e3o de acad\u00eamico, sem nota de despond\u00eancia, algum conte\u00fado de testamento. Giremos a perspectiva.<\/em><\/p>\n<p><em>Ainda talvez mais que eu, ele vos agradeceria minha presen\u00e7a aqui, aonde desejei vir \u2013 para o ver &#8220;claro e quieto&#8221; que Machado de Assis inculca. S\u00f3 n\u00e3o cismando, h\u00e1-de-o, que em sua mesma vereda, a subseguir, orgulhoso e transido, o elenco destes que ganharam vida dif\u00edcil, trabalharam sem repouso e hora por hora renderam-se \u00e0 intima\u00e7\u00e3o interna &#8211; escolha ou chamado. Eles, Neves da Fontoura, \u00c1lvares de Azevedo, o que morreu mo\u00e7o, poento de poesia. Coelho Neto, amoroso pastor da turbamulta das palavras. Tenho-os comigo. Pois n\u00e3o descendemos dos mortos?<\/em><\/p>\n<p><em>Deferidos, entretanto, \u00e0 simpatia dos vivos. V\u00f3s. Demais que vindo-me o bom modo de vosso agasalho pela palavra de um a mim bem pr\u00f3ximo, admirado e querido, malungo, autorizado. Afonso Arinos de Melo Franco -: capaz para pretender-se &#8220;mineiro, totalmente&#8221;, por estirpe e por esp\u00e9cie, &#8220;das Gerais e dos Gerais&#8221;; id\u00f4neo de declarar que tudo o que sente de mais espont\u00e2neo e natural no seu esp\u00edrito &#8220;tende a considerar intelectualmente e mesmo literariamente a vida&#8221;; autor de A Alma do Tempo, que fundo releio, para alongamento e consolo, um dos livros maiores do pensar e sentir brasileiros; origin\u00e1rio dessa Paracatu &#8211; grande e memoriosa entre chapad\u00f5es sert\u00f5es -, e cuja estranha not\u00edcia, trazida por vaqueiros, boiadeiros, tropeiros, desde a meninice enriquecia-me a imagina\u00e7\u00e3o, qual outrotanta maravilhosa Tombuctu, a depois do Saara, sobrenomeada &#8220;a Rainha das Areias&#8221;. Dele temo e alegra-me ouvir afirma\u00e7\u00f5es de doador muito entusiasmado; j\u00e1 que arriscado e conturbante \u00e9 a gente se tirar das solid\u00f5es fortificadas. Trar-me-\u00e1, igual, simb\u00f3lico, vosso primeiro abra\u00e7o, o escritor sem falsas e amigo sem falha: Josu\u00e9 Montello. Cumulo-me.<\/em><\/p>\n<p><em>Nem aguentaria dobrar mais momentos, nesta festa anivers\u00e1ria &#8211; dele, a octog\u00e9sima, que seria hoje, no plano terreno. Tanto tempo a esperei, e fiz que esper\u00e1sseis. Relevai-me.<\/em><\/p>\n<p><em>Foi h\u00e1 mais de quatro anos, a rec\u00e9m. V\u00e9sper luzindo, ele cumprira. De repente, morreu: que \u00e9 quando um homem vem inteiro pronto de suas pr\u00f3prias profundezas. Morreu, com mod\u00e9stia. Se passou para o lado claro, fora e acima de suave ramerr\u00e3o e terr\u00edveis balb\u00fardias.<\/em><\/p>\n<p><em>Mas &#8211; o que \u00e9 um pormenor de aus\u00eancia. Faz diferen\u00e7a? \u201cChoras os que n\u00e3o devias chorar. O homem desperto nem pelos mortos nem pelos vivos se enluta&#8221; &#8211; Krishna instrui Arjuna, no Bh\u00e1gavad Gita. A gente morre \u00e9 para provar que viveu. S\u00f3 o epit\u00e1fio \u00e9 f\u00f3rmula lapidar. Elogio que vale, em si, perfeito \u00fanico, sum\u00e1rio: JO\u00c3O NEVES DA FONTOURA.<\/em><\/p>\n<p><em>Alegremo-nos, suspensas ingentes l\u00e2mpadas. E: &#8220;Sobe a luz sobre o justo e d\u00e1-se ao teso cora\u00e7\u00e3o alegria!&#8221; &#8211; desfere ent\u00e3o o salmo. As pessoas n\u00e3o morrem, ficam encantadas.<\/em><\/p>\n<p><em>Soprem-se as oitenta velinhas.<\/em><\/p>\n<p><em>Mais eu murmure e diga, ante macios morros e fortes gerais estrelas, verde o mugibundo buriti, buriti, e a sempre-viva-dos-gerais que mi\u00fado vi\u00e7a e enfeita: O mundo \u00e9 m\u00e1gico.<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Ministro, est\u00e1 aqui CORDISBURGO.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<figure id=\"attachment_69\" aria-describedby=\"caption-attachment-69\" style=\"width: 580px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-69\" src=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/05f1.jpg\" alt=\"\" width=\"580\" height=\"483\" srcset=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/05f1.jpg 580w, https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/05f1-300x250.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 580px) 100vw, 580px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-69\" class=\"wp-caption-text\">(Foto: IEB\/USP)<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: 14pt;\">Morte<\/span><\/strong><\/p>\n<p>Tr\u00eas dias ap\u00f3s a posse, em 19 de novembro de 1967, aos 59 anos de idade, Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa morreria subitamente em seu apartamento em Copacabana, v\u00edtima de um infarto, sozinho (a esposa fora \u00e0 missa), mal tendo tempo de chamar por socorro, tendo tentado pedir ajuda por telefone. O falecimento aconteceu no auge da fama, deixando o pa\u00eds consternado e uma lenda em torno de sua morte. Foi sepultado no Cemit\u00e9rio S\u00e3o Jo\u00e3o Batista, no Rio de Janeiro, no Mausol\u00e9u da Academia Brasileira de Letras.<\/p>\n<p>Em 1967, Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa seria indicado para o pr\u00eamio Nobel de Literatura. A indica\u00e7\u00e3o, iniciativa dos seus editores alem\u00e3es, franceses e italianos, foi barrada pela morte do escritor. A obra do brasileiro havia alcan\u00e7ado esferas talvez at\u00e9 hoje desconhecidas. Tinha-se dedicado \u00e0 medicina, \u00e0 diplomacia, e, fundamentalmente \u00e0s suas cren\u00e7as, descritas em sua obra liter\u00e1ria. O autor, com seus experimentos lingu\u00edsticos, sua t\u00e9cnica, seu mundo ficcional, renovou o romance brasileiro, concedendo-lhe caminhos at\u00e9 ent\u00e3o in\u00e9ditos. Sua obra se imp\u00f4s n\u00e3o apenas no Brasil, mas alcan\u00e7ou o mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: 14pt;\">Um Chamado Jo\u00e3o<\/span><\/strong><\/p>\n<p>No Jornal Correio da Manh\u00e3 de 22 de novembro de 1967 foi publicado um poema de autoria de Carlos Drummond de Andrade em homenagem a Guimar\u00e3es Rosa.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Um chamado Jo\u00e3o<br \/>\n<\/strong><em>Carlos Drummond e Andrade<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Jo\u00e3o era fabulista?<br \/>\nfabuloso?<br \/>\nf\u00e1bula?<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Sert\u00e3o m\u00edstico disparando<br \/>\nno ex\u00edlio da linguagem comum?<br \/>\nProjetava na gravatinha<br \/>\na quinta face das coisas,<br \/>\ninenarr\u00e1vel narrada?<br \/>\nUm estranho chamado Jo\u00e3o<br \/>\npara disfar\u00e7ar, para far\u00e7ar<br \/>\no que n\u00e3o ousamos compreender?<br \/>\nTinha pastos, buritis plantados<br \/>\nno apartamento?<br \/>\nno peito?<br \/>\nVegetal ele era ou passarinho<br \/>\nsob a robusta ossatura com pinta<br \/>\nde boi risonho?<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Era um teatro<br \/>\ne todos os artistas<br \/>\nno mesmo papel,<br \/>\nciranda mult\u00edvoca?<br \/>\nJo\u00e3o era tudo?<br \/>\ntudo escondido, florindo<br \/>\ncomo flor \u00e9 flor, mesmo n\u00e3o semeada?<br \/>\nMapa com acidentes<br \/>\ndeslizando para fora, falando?<br \/>\nGuardava rios no bolso,<br \/>\ncada qual com a cor de suas \u00e1guas?<br \/>\nsem misturar, sem conflitar?<br \/>\nE de cada gota redigia nome,<br \/>\ncurva, fim,<br \/>\ne no destinado geral<br \/>\nseu fado era saber<br \/>\npara contar sem desnudar<br \/>\no que n\u00e3o deve ser desnudado<br \/>\ne por isso se veste de v\u00e9us novos?<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">M\u00e1gico sem apetrechos,<br \/>\ncivilmente m\u00e1gico, apelador<br \/>\ne precipites prod\u00edgios acudindo<br \/>\na chamado geral?<br \/>\nEmbaixador do reino<br \/>\nque h\u00e1 por tr\u00e1s dos reinos,<br \/>\ndos poderes, dassupostas f\u00f3rmulas<br \/>\nde abracadabra, s\u00e9samo?<br \/>\nReino cercado<br \/>\nn\u00e3o de muros, chaves, c\u00f3digos,<br \/>\nmas o reino-reino?<br \/>\nPor que Jo\u00e3o sorria<br \/>\nse lhe perguntavam<br \/>\nque mist\u00e9rio \u00e9 esse?<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">E propondo desenhos figurava<br \/>\nmenos a resposta que<br \/>\noutra quest\u00e3o ao perguntante?<br \/>\nTinha parte com&#8230; (n\u00e3o sei<br \/>\no nome) ou ele mesmo era<br \/>\na parte de gente<br \/>\nservindo de ponte<br \/>\nentre o sub e o sobre<br \/>\nque se arcabuzeiam<br \/>\nde antes do princ\u00edpio,<br \/>\nque se entrela\u00e7am<br \/>\npara melhor guerra,<br \/>\npara maior festa?<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Ficamos sem saber o que era Jo\u00e3o<br \/>\ne se Jo\u00e3o existiu<br \/>\nde se pegar.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: 14pt;\">Obras P\u00f3stumas<\/span><\/strong><\/p>\n<p>Logo ap\u00f3s o enterro do autor, a filha Vilma Guimar\u00e3es Rosa foi ao Itamaraty e cumpriu as ordens do pai: retirou as duas pastas do cofre e, tal como estavam, as entregou na editora Jos\u00e9 Olympio para publica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As duas obras foram revistas e organizadas pelo editor e tradutor Paulo R\u00f3nai, que procurou ser o mais fiel poss\u00edvel aos originais deixados pelo amigo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: 14pt;\">Estas Est\u00f3rias<\/span><\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_70\" aria-describedby=\"caption-attachment-70\" style=\"width: 302px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-70\" src=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/118828.jpg\" alt=\"\" width=\"302\" height=\"461\" srcset=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/118828.jpg 393w, https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/118828-197x300.jpg 197w\" sizes=\"(max-width: 302px) 100vw, 302px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-70\" class=\"wp-caption-text\"><em>(Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Internet)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Em 1969, foi publicada a primeira obra p\u00f3stuma do escritor, intitulada &#8220;Estas Est\u00f3rias&#8221;, um livro com nove contos:<\/p>\n<ul>\n<li>A simples e exata est\u00f3ria do burrinho do comandante<\/li>\n<li>Os chap\u00e9us transeuntes<\/li>\n<li>Com o vaqueiro Mariano<\/li>\n<li>A est\u00f3ria do homem do Pinguelo<\/li>\n<li>Meu tio o Iauaret\u00ea<\/li>\n<li>Bicho mau<\/li>\n<li>P\u00e1ramo<\/li>\n<li>Ret\u00e1bulo de S\u00e3o Nunca<\/li>\n<li>O dar das pedras brilhantes<\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: 14pt;\">Ave, palavra<\/span><\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_71\" aria-describedby=\"caption-attachment-71\" style=\"width: 302px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-71\" src=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/142565.jpg\" alt=\"\" width=\"302\" height=\"456\" srcset=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/142565.jpg 397w, https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/142565-199x300.jpg 199w\" sizes=\"(max-width: 302px) 100vw, 302px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-71\" class=\"wp-caption-text\"><em>(Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Internet)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Em 1970, foi publicado &#8220;Ave Palavra&#8221;, foi a \u00faltima obra de Guimar\u00e3es Rosa. Encerrou uma produ\u00e7\u00e3o que se restringiu a oito livros, mas que mudou para sempre a literatura brasileira.<\/p>\n<p>Segundo informa\u00e7\u00e3o da revista EPOCA, uma carta preservada na Biblioteca Mindlin, da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), abre um mist\u00e9rio em torno do livro e do tratamento dado aos originais do escritor. A carta foi escrita por volta de 1970 por Raul Floriano, advogado que cuidava do esp\u00f3lio de Guimar\u00e3es Rosa. Foi dirigida a Daniel Pereira, irm\u00e3o de Jos\u00e9 Olympio, respons\u00e1vel pelas publica\u00e7\u00f5es da casa. Nela, Floriano diz que alguns textos deveriam ser \u201celiminados\u201d do livro a ser editado. Ele justificava: \u201cEsses textos pertencem aos Arquivos Secretos do Itamaraty\u201d. A carta lista sete relat\u00f3rios escritos por Rosa ao longo da carreira como diplomata que n\u00e3o entraram em Ave, palavra. Uma estranha interfer\u00eancia do advogado, que pode ter deformado o \u00faltimo livro do escritor.<\/p>\n<p>A obra uniu os textos que o autor j\u00e1 havia deixado prontos, sendo acrescentados outros que Guimar\u00e3es Rosa havia come\u00e7ado a rever e refundir para o livro, sendo que quatro deles eram totalmente in\u00e9ditos.<\/p>\n<p>A melhor defini\u00e7\u00e3o de Ave, Palavra \u00e9 de Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa: trata-se, disse ele, de uma \u201cmiscel\u00e2nia\u201d. Com isso, quis caracterizar a variedade formal e tem\u00e1tica deste livro, fruto de uma colabora\u00e7\u00e3o de cerca de vinte anos em revistas e jornais brasileiros, durante o per\u00edodo de 1947 a 1967. Reunindo contos, poesias, notas de viagem, trechos de di\u00e1rios, reportagens po\u00e9ticas, medita\u00e7\u00f5es, e ainda poemas dram\u00e1ticos e reflex\u00f5es filos\u00f3ficas, este volume nos d\u00e1 bem a medida da versatilidade do escritor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: 14pt;\">Magma<\/span><\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_80\" aria-describedby=\"caption-attachment-80\" style=\"width: 302px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-80\" src=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/magma1.jpg\" alt=\"\" width=\"302\" height=\"443\" srcset=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/magma1.jpg 349w, https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2020\/12\/magma1-204x300.jpg 204w\" sizes=\"(max-width: 302px) 100vw, 302px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-80\" class=\"wp-caption-text\"><em>(Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Internet)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Em 1997, 30 anos ap\u00f3s a morte do escritor, foi lan\u00e7ado o livro &#8220;Magma&#8221;. Este \u00e9 o \u00fanico livro de poemas de Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa, que devido ao n\u00edvel de excel\u00eancia dos seus romances, este volume ficou sempre em segundo plano.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio escritor considerava a obra de menor express\u00e3o, n\u00e3o demonstrando interesse em public\u00e1-la durante toda a sua vida, apesar do livro ter sido ganhador do concurso liter\u00e1rio promovido pela Academia Brasileira de Letras (ABL) em 1936, utilizando o pseud\u00f4nimo \u201cViator\u201d. O autor justificou a sua decis\u00e3o de n\u00e3o publicar o volume de poemas em entrevista:<\/p>\n<blockquote><p><em>[&#8230;]escrevi um livro n\u00e3o muito pequeno de poemas, que at\u00e9 foi elogiado. [Depois] passaram-se quase dez anos, at\u00e9 eu poder me dedicar novamente \u00e0 literatura. E revisando meus exerc\u00edcios l\u00edricos, n\u00e3o os achei totalmente maus, mas tampouco muito convincentes.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: 14pt;\">Refer\u00eancias<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">AMARELA, Rosa. Com o Vaqueiro Mariano. <strong>Rosa Amarela<\/strong>, 2012. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/leituraliteraria.blogspot.com\/2012\/04\/com-o-vaqueiro-mariano.html&gt;. Acesso em: dezembro de 2020.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">CUNHA, Carolina. A viagem do vaqueiro Rosa. <b>Medium\/Roteiros Liter\u00e1rios<\/b>, 2014. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/medium.com\/roteirosliterarios\/a-viagem-do-vaqueiro-rosa-221606e20624&gt;. Acesso em: dezembro de 2020.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">Guimar\u00e3es Rosa. <b>UFRGS &#8211; Universidade Federal do Rio Grande do Sul<\/b>, 2000. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/chasqueweb\/literatura\/guimaraes-rosa2.htm&gt;. Acesso em: dezembro de 2020.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa. <b>Academia Brasileira de Letras<\/b>. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/www.academia.org.br\/academicos\/joao-guimaraes-rosa&gt;. Acesso em: dezembro de 2020.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">Uma est\u00f3ria de amor (da obra Manuelz\u00e3o e Miguilim), de Guimar\u00e3es Rosa. <b>Passei Web<\/b>, 2013. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/www.passeiweb.com\/estudos\/livros\/uma_estoria_de_amor\/&gt;. Acesso em: dezembro de 2020.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">O recado do morro (Conto de Corpo de Baile), de Guimar\u00e3es Rosa. <b>Passei Web<\/b>, 2013. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/www.passeiweb.com\/estudos\/livros\/o_recado_do_morro_conto\/&gt;. Acesso em: dezembro de 2020.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">Primeiras Est\u00f3rias, de Guimar\u00e3es Rosa. <b>Passei Web<\/b>, 2015. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/www.passeiweb.com\/estudos\/livros\/primeiras_estorias\/&gt;. Acesso em: dezembro de 2020.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">MARCHELLI, Clarissa. Em &#8220;A est\u00f3ria de L\u00e9lio e Lina&#8221;, Lina cura L\u00e9lio. <strong>Revista Garrafa\/UFRJ &#8211; Universidade Federal do Rio de Janeiro<\/strong>, 2018. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/revistas.ufrj.br\/index.php\/garrafa\/article\/view\/23945&gt;. Acesso em: dezembro de 2020.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">KIYOMURA, Leila. \u201cCampo Geral\u201d \u00e9 um caminho sem volta para o leitor de Guimar\u00e3es Rosa. <strong>Jornal da USP<\/strong>, 2020. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/jornal.usp.br\/cultura\/campo-geral-e-um-caminho-sem-volta-para-o-leitor-de-guimaraes-rosa\/&gt;. Acesso em: dezembro de 2020.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">KOVACS, Alexandre. Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa &#8211; Magma. <strong>Mundo de K<\/strong>, 2017. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/www.mundodek.com\/2017\/03\/joao-guimaraes-rosa-magma.html&gt;. Acesso em: dezembro de 2020.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">ROSA, Maria da Gl\u00f3ria S\u00e1. \u201cCara de Bronze\u201d: uma hist\u00f3ria em linguagem de cinema ou o m\u00edstico em Guimar\u00e3es Rosa. <strong>Universidade Federal da Grande Dourados<\/strong>, 2011. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/ojs.ufgd.edu.br\/index.php\/Raido\/article\/view\/1357&gt;. Acesso em: dezembro de 2020.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">D&#8217;ANGELO, Biagio. D\u00e3o-Lalal\u00e3o, a reescrita do desejo. <strong>O Eixo e a Roda: Revista de Literatura Brasileira &#8211;\u00a0 Universidade Federal de Minas Gerais &#8211; UFMG<\/strong>, 2006. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/www.periodicos.letras.ufmg.br\/index.php\/o_eixo_ea_roda\/article\/view\/3209&gt;. Acesso em: dezembro de 2020.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">COBO, Joselaine Brondani Medeiros. MACHISMO E EROTISMO NO CONTO BURITI, DE GUIMAR\u00c3ES ROSA. <strong>Linguagens &amp; Cidadania &#8211; Universidade Federal de Santa Maria &#8211; UFSM<\/strong>, 2017. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/periodicos.ufsm.br\/LeC\/article\/view\/29737&gt;. Acesso em: dezembro de 2020.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">DIANA, Daniela. Grande Sert\u00e3o: Veredas de Guimar\u00e3es Rosa. <strong>Toda Mat\u00e9ria<\/strong>. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/www.todamateria.com.br\/grande-sertao-veredas-de-guimaraes-rosa\/&gt;. Acesso em: dezembro de 2020.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">\u201cGrande Sert\u00e3o: Veredas\u201d \u2013 Resumo da obra de Guimar\u00e3es Rosa. <strong>Guia do Estudante<\/strong>, 2018. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/guiadoestudante.abril.com.br\/estudo\/grande-sertao-veredas-resumo-da-obra-de-guimaraes-rosa\/&gt;. Acesso em: dezembro de 2020.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">Tutam\u00e9ia: a despedida de Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa. <b>Literatura BR<\/b>, 2014. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/www.literaturabr.com\/2014\/01\/23\/tutameia-a-despedida-de-joao-guimaraes-rosa\/&gt;. Acesso em: dezembro de 2020.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">Tutam\u00e9ia &#8211; Terceiras Est\u00f3rias. <b>Algo Sobre<\/b>. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/www.algosobre.com.br\/resumos-literarios\/tutameia-terceiras-estorias.html&gt;. Acesso em: dezembro de 2020.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">As \u00faltimas palavras de Guimar\u00e3es Rosa. <b>Revista \u00c9POCA<\/b>, 2017. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/epoca.globo.com\/cultura\/noticia\/2017\/07\/ultimas-palavras-de-guimaraes-rosa.html&gt;. Acesso em: dezembro de 2020.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">TAVARES, Br\u00e1ulio. 3577) &#8220;O Mist\u00e9rio dos MMM&#8221; (14.8.2014). <strong>Mundo Fantasmo, <\/strong>2014.\u00a0Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/mundofantasmo.blogspot.com\/2014\/08\/3577-o-misterio-dos-mmm-1482014.html&gt;. Acesso em: dezembro de 2020.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">DEMARCHI, Ademir. Os sete pecados capitais. <strong>Musa Rara, <\/strong>2017. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/www.musarara.com.br\/os-sete-pecados-capitais&gt;. Acesso em: dezembro de 2020.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">LOPES, Chico. \u201cAve, Palavra\u201d, de Guimar\u00e3es Rosa: os p\u00e1ssaros e o Sul de Minas. <strong>GGN, <\/strong>2013. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/jornalggn.com.br\/cultura\/ave-palavra-livro-postumo-de-guimaraes-rosa\/&gt;. Acesso em: dezembro de 2020.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">FILHO, Jo\u00e3o Correia. A VIAGEM DE GUIMAR\u00c3ES ROSA AO GRANDE SERT\u00c3O. <strong>Aventuras na Hist\u00f3ria, <\/strong>2018. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/aventurasnahistoria.uol.com.br\/noticias\/reportagem\/a-viagem-de-guimaraes-rosa-ao-grande-sertao.phtml&gt;. Acesso em: dezembro de 2020.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa: meio s\u00e9culo de saudade. <b>O Bar\u00e3o<\/b>, 2017. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/obarao.damasio.com.br\/joao-guimaraes-rosa-meio-seculo-de-saudade\/&gt;. Acesso em: dezembro de 2020.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">VAZ, Maia. Do &#8216;Mineir\u00eas&#8217; a Guimar\u00e3es Rosa. <strong>Letras In.Verso e Re.Verso, <\/strong>2015. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/www.blogletras.com\/2015\/10\/do-mineires-guimaraes-rosa.html&gt;. Acesso em: dezembro de 2020.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa, o feiticeiro das palavras. <strong>Letras In.Verso e Re.Verso, <\/strong>2008. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/www.blogletras.com\/2008\/06\/100-anos-de-guimares-rosa.html&gt;. Acesso em: dezembro de 2020.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">FENSKE, Elfi K\u00fcrten. Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa &#8211; o demiurgo do sert\u00e3o. <strong>Templo Cultural Delfos<\/strong>, 2013. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/www.elfikurten.com.br\/2013\/05\/joao-guimaraes-rosa-o-demiurgo-do-sertao.html&gt;. Acesso em: dezembro de 2020.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">ANDRADE, Carlos Drummond. Um Chamado Jo\u00e3o. <strong>Blog dos Poetas\/Jornal Correio da Manh\u00e3<\/strong>, 1968. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/blogdospoetas.com.br\/poemas\/um-chamado-joao\/&gt;. Acesso em: dezembro de 2020.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: 14pt;\">Citar Refer\u00eancia<\/span><\/strong><\/p>\n<p>CARVALHO, Lucas Gustavo (Pesquisa). Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa. <strong>Drops por Lucas Gustavo<\/strong>, 2021. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/blog\/biografias\/joao-guimaraes-rosa\/&gt;. Acesso em: **de*****de****.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa foi um dos mais importantes escritores brasileiros do s\u00e9culo XX,\u00a0 destaque da terceira fase do modernismo, produzindo contos, poemas, novelas e romances que inovaram ao romper com as t\u00e9cnicas tradicionais da literatura da \u00e9poca. O escritor construiu novos voc\u00e1bulos e express\u00f5es, reinventando a L\u00edngua Portuguesa. &nbsp; Biografia Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa nasceu na cidade de Cordisburgo, Minas Gerais, em 27 de junho de 1908, sendo o primeiro dos seis filhos de Francisca Guimar\u00e3es Rosa (antes, Francisca Lima Guimar\u00e3es), conhecida como &#8220;Dona Chiquitinha&#8221; e de Florduardo Pinto Rosa, mais conhecido como &#8220;Seu Ful\u00f4&#8221;. Filho de comerciante, residia quando crian\u00e7a na rua principal da cidade, hoje denominada Avenida Padre Jo\u00e3o, bem em frente a esta\u00e7\u00e3o da Estrada de Ferro Central do Brasil. No local hoje encontra-se \u00e0 visita\u00e7\u00e3o o Museu Casa Guimar\u00e3es Rosa, que resgata a hist\u00f3ria do escritor, tendo \u00e0 mostra objetos pessoais, livros, os c\u00f4modos todos montados \u00e0 car\u00e1ter, incluindo a &#8220;venda&#8221; de &#8220;Seu Ful\u00f4&#8221;. &nbsp; Estudos Jo\u00e3ozito, como era conhecido, iniciou seus estudos em Cordisburgo, na denominada &#8220;Escolas Reunidas&#8221;, que at\u00e9 ent\u00e3o era administrada por freiras e possu\u00eda alas masculina e feminina. Hoje \u00e9 denominada Escola Estadual Mestre Candinho. Foi com C\u00e2ndido Pereira de Souza, o pr\u00f3prio Mestre Candinho, que ele aprendeu as primeiras letras. Sempre apaixonado pelas l\u00ednguas, ainda com menos de 7 anos come\u00e7ou a estudar franc\u00eas por conta pr\u00f3pria. Com a chegada de Frei Can\u00edsio Zoetmulder, frade franciscano holand\u00eas, em 1917, pode iniciar-se no holand\u00eas e prosseguir os estudos de franc\u00eas, agora sobre a supervis\u00e3o daquele frade. No ano de 1918, mudou-se para Belo Horizonte, para morar com seus av\u00f3s, terminando o curso prim\u00e1rio no Grupo Escolar Afonso Pena. Iniciou o curso secund\u00e1rio no Col\u00e9gio Santo Ant\u00f4nio, em S\u00e3o Jo\u00e3o del Rei, em regime de internato, permanecendo por curto per\u00edodo, n\u00e3o adaptando-se ao local e a comida. Voltando a Belo Horizonte, foi matriculado no Col\u00e9gio Arnaldo, institui\u00e7\u00e3o fundada por padres alem\u00e3es, iniciando o estudo do idioma alem\u00e3o, aprendendo em curto espa\u00e7o de tempo. Ainda neste per\u00edodo, demonstra sua paix\u00e3o por Cordisburgo, sua terra natal. Contava os dias para que pudesse pegar o trem e ir passar as f\u00e9rias na cidade. Em 1925, com apenas 16 anos, inicia os estudos na Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais. &nbsp; In\u00edcio nas Letras Iniciou nas letras no ano de 1929, quando escreveu quatro contos: Ca\u00e7ador de camur\u00e7as, Chronos Kai Anagke (t\u00edtulo grego, significando Tempo e Destino), O mist\u00e9rio de Highmore Hall e Makin\u00e9, para um concurso promovido pela revista O Cruzeiro. Todos os contos foram premiados e publicados, sendo premiado com a recompensa de cem contos de r\u00e9is. &nbsp; Medicina e For\u00e7a P\u00fablica Aos 22 anos, em 27 de junho de 1930, casa-se com L\u00edgia Cabral Penna, ent\u00e3o com 16 anos, que lhe d\u00e1 duas filhas: Vilma e Agnes. Dura pouco seu primeiro casamento, desfazendo-se uns poucos anos depois. Neste mesmo ano, forma-se em Medicina, sendo o orador da turma, escolhido por aclama\u00e7\u00e3o. Foi exercer a profiss\u00e3o em Itaguara, ent\u00e3o munic\u00edpio de Ita\u00fana, onde permanece por cerca de dois anos. Trabalhou no atendimento da popula\u00e7\u00e3o local, relacionando-se na ajuda \u00e0 comunidade, sobretudo aos pobres e marginalizados. Devido a precariedade do local, que n\u00e3o possu\u00eda sequer energia el\u00e9trica, acabou por afastar-se da medicina ali. Em 1932, durante a Revolu\u00e7\u00e3o Constitucionalista, serviu voluntariamente como m\u00e9dico volunt\u00e1rio da For\u00e7a P\u00fablica, efetivando-se, posteriormente, por concurso. No ano seguinte, passou a exercer a fun\u00e7\u00e3o de Oficial M\u00e9dico do 9\u00ba Batalh\u00e3o de Infantaria de Barbacena. Neste per\u00edodo, dedicou ao estudo de idiomas e realizar pesquisas nos arquivos do quartel, sobretudo sobre o jaguncismo da regi\u00e3o do Rio S\u00e3o Francisco. Neste per\u00edodo j\u00e1 era clara a falta de &#8220;voca\u00e7\u00e3o&#8221; para o exerc\u00edcio da Medicina, confidenciando ao amigo Dr. Pedro Moreira Barbosa, em carta datada de 20 de mar\u00e7o de 1934: N\u00e3o nasci para isso, penso. N\u00e3o \u00e9 esta, digo como dizia Don Juan, sempre &#8216;apr\u00e8s avoir couch\u00e9 avec&#8230;\u2019 Primeiramente, repugna-me qualquer trabalho material s\u00f3 posso agir satisfeito no terreno das teorias, dos textos, do racioc\u00ednio puro, dos subjetivismos. Sou um jogador de xadrez nunca pude, por exemplo, com o bilhar ou com o futebol. O escritor, com seu not\u00e1vel conhecimento de l\u00edngua estrangeira, entusiasmou-se com a possibilidade de ser selecionado para o Itamaraty, seguindo em 1934 para o Rio de Janeiro e prestando concurso para o Minist\u00e9rio do Exterior, obtendo o segundo lugar. &nbsp; Premia\u00e7\u00e3o com Poemas Em 1936, a colet\u00e2nea de poemas Magma recebe o pr\u00eamio de poesia da Academia Brasileira de Letras, mas n\u00e3o realizou a publica\u00e7\u00e3o da obra. No ano seguinte, utilizando-se do pseud\u00f4nimo &#8220;Viator&#8221;, concorre ao pr\u00eamio Humberto de Campos, com o volume intitulado Contos, perdendo o primeiro lugar para Lu\u00eds Jardim. O volume s\u00f3 viria a ser publicado, ap\u00f3s revis\u00e3o do autor, em 1946 atrav\u00e9s do livro Sagarana. &nbsp; Vida Diplom\u00e1tica (I) No ano de 1938, Guimar\u00e3es Rosa \u00e9 nomeado C\u00f4nsul Adjunto em Hamburgo, e segue para a Europa. L\u00e1 conhece Aracy Moebius de Carvalho, ent\u00e3o chefe da Se\u00e7\u00e3o de Passaportes do consulado brasileiro, que viria a ser sua segunda mulher. Era \u00e9poca do nazismo alem\u00e3o, e embora consciente dos perigos que enfrentava, Aracy burlou as regras do governo brasileiro, emitindo vistos para judeus entrarem no Brasil, mesmo com o vigor da Circular Secreta 1127, documento que restringia a entrada de judeus no pa\u00eds. O autor ajudou a futura esposa na miss\u00e3o, salvando milhares de vidas. Em reconhecimento a essa atitude, em Abril de 1985, foram homenageados em Israel: o nome do casal foi dado a um bosque que fica ao longo das encostas que d\u00e3o acesso a Jerusal\u00e9m. Durante a guerra, por v\u00e1rias vezes escapou da morte; ao voltar para casa, uma noite, s\u00f3 encontrou escombros. A supersti\u00e7\u00e3o e o misticismo acompanhariam o escritor por toda a vida. Permanece no pa\u00eds at\u00e9 1942, quando o Brasil rompe com a Alemanha, sendo retido por quatro meses na cidade de Baden-Baden, junto a outros brasileiros, sendo libertados em troca de diplomatas alem\u00e3es. O Diplomata \u00e9 um sonhador que acredita poder remediar o que os pol\u00edticos estragam. Retornando ao Brasil, ap\u00f3s r\u00e1pida passagem pelo Rio de Janeiro, o escritor segue para Bogot\u00e1, como Secret\u00e1rio da Embaixada, l\u00e1 permanecendo at\u00e9 1944. Em dezembro de 1945, depois de longa aus\u00eancia retorna ao Brasil, dirigindo-se inicialmente, \u00e0 Fazenda Tr\u00eas Barras, ber\u00e7o da fam\u00edlia, e depois, \u00e0 cavalo, rumou para Cordisburgo, onde se hospedou no tradicional Argentina Hotel, ao lado de sua antiga resid\u00eancia. O fato demonstra a conex\u00e3o e sentimento que tinha com a cidade. Em 1946, Guimar\u00e3es Rosa \u00e9 nomeado chefe-de-gabinete do ministro Jo\u00e3o Neves da Fontoura e vai a Paris como membro da delega\u00e7\u00e3o \u00e0 Confer\u00eancia de Paz. &nbsp; Sagarana Sagarana \u00e9 o primeiro livre publicado pelo escritor. Este \u00e9 o mesmo livro que participou do Pr\u00eamio Humberto de Campos, em 1937, conquistando o segundo lugar. Ap\u00f3s refazer a obra, e reduzir de 500 para 300 p\u00e1ginas realizou sua publica\u00e7\u00e3o em 1946. A obra garantiu-lhe um privilegiado lugar de destaque no panorama da literatura brasileira, pela linguagem inovadora, pela singular estrutura narrativa e a riqueza de simbologia dos seus contos. Com ele, o regionalismo estava novamente em pauta, mas com um novo significado e assumindo a caracter\u00edstica de experi\u00eancia est\u00e9tica universal: retrata a paisagem mineira, a vida das fazendas, dos vaqueiros e dos criadores de gado. O primeiro conto do livro intitula-se \u201cO burrinho pedr\u00eas\u201d, inspirado em um fato acontecido na regi\u00e3o em que Guimar\u00e3es Rosa nasceu: o afogamento de um grupo de vaqueiros em um c\u00f3rrego cheio. No segundo conto, \u201cA volta do marido pr\u00f3digo\u201d, narra-se a hist\u00f3ria de um mulato que abandona o trabalho, negocia a pr\u00f3pria mulher e vai para o Rio de Janeiro. Em \u201cSarapalha\u201d, terceiro conto do livro, dois primos disputam a mesma mulher em uma regi\u00e3o assolada pela mal\u00e1ria. No quarto conto, intitulado \u201cDuelo\u201d, tem-se a hist\u00f3ria de Tur\u00edbio, personagem que surpreende a mulher, Silvana, com o ex-militar Cassiano. Por engano, por\u00e9m, ele mata o irm\u00e3o desse amante. \u201cMinha gente\u201d \u00e9 o t\u00edtulo do quinto conto, em que se narra, em primeira pessoa, uma hist\u00f3ria de amor contextualizada em um cen\u00e1rio movimentado pelo clima das elei\u00e7\u00f5es. No sexto conto, intitulado \u201cS\u00e3o Marcos\u201d, narra-se uma travessia pelo sert\u00e3o, marcada pela descri\u00e7\u00e3o do cen\u00e1rio t\u00edpico dessa paisagem brasileira. Em \u201cCorpo fechado\u201d, s\u00e9timo conto de Sagarana, narra-se a hist\u00f3ria de Manuel Ful\u00f4, que ama mais sua mula de estima\u00e7\u00e3o do que a sua noiva, cobi\u00e7ada por um valent\u00e3o. Para salvar a noiva das garras do homem que a deseja, Manuel Ful\u00f4 entrega a mula a um feiticeiro para fechar o seu corpo e enfrentar com sucesso seu advers\u00e1rio. No oitavo conto, intitulado \u201cConversa de bois\u201d, o leitor acompanha, por meio da narra\u00e7\u00e3o, uma viagem de um carro de bois. O inusitado \u00e9 que nesse conto os animais falam e raciocinam. O \u00faltimo conto do livro, intitulado \u201cHora e vez de Augusto Matraga\u201d, foi considerado pelo pr\u00f3prio autor como o melhor da sele\u00e7\u00e3o de nove contos que comp\u00f5em a obra. O protagonista da narrativa, Augusto Matraga, \u00e9 um homem truculento, poderoso e autorit\u00e1rio, espelho do t\u00edpico homem que det\u00e9m poder nas inst\u00e2ncias governamentais do Brasil. Sucesso de cr\u00edtica e p\u00fablico, seu livro de contos recebe o Pr\u00eamio da Sociedade Felipe d&#8217;Oliveira, esgotando-se, no mesmo ano as duas edi\u00e7\u00f5es. &nbsp; Vida Diplom\u00e1tica (II) Guimar\u00e3es Rosa ainda continuou atuando na vida diplom\u00e1tica ap\u00f3s o sucesso de seu primeiro livro. Em 1948, o escritor est\u00e1 novamente em Bogot\u00e1 como Secret\u00e1rio-Geral da delega\u00e7\u00e3o brasileira \u00e0 IX Confer\u00eancia Inter-Americana; durante a realiza\u00e7\u00e3o do evento ocorre o assassinato pol\u00edtico do prestigioso l\u00edder popular Jorge Eli\u00e9cer Gait\u00e1n. De 1948 a 1950, o escritor encontra-se de novo em Paris, respectivamente como 1\u00ba Secret\u00e1rio e Conselheiro da Embaixada. Em 1951 \u00e9 novamente nomeado Chefe de Gabinete de Jo\u00e3o Neves da Fontoura. &nbsp; Futebol e o Poema Perdido Em 1950, o Clube Atl\u00e9tico Mineiro foi a primeira equipe de futebol de Minas Gerais e uma das primeiras do Brasil a competir no continente europeu, sendo conhecido como &#8220;Campe\u00e3o do Gelo&#8221; por jogar em condi\u00e7\u00f5es adversas de temperatura. O empres\u00e1rio que cuidava da excurs\u00e3o sumiu com todo o dinheiro da arrecada\u00e7\u00e3o, e sem passagens para voltar ao Brasil, nem onde ficar, recorreram \u00e0 Embaixada de Paris. O primeiro secret\u00e1rio Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa n\u00e3o s\u00f3 os recebeu como se declarou atleticano, realizando um discurso \u00e0 delega\u00e7\u00e3o, onde exaltava a equipe mineira, relatando grande atletas e esquadr\u00f5es e se referindo como &#8220;Nosso Atl\u00e9tico&#8221;. Teria ele escrito tamb\u00e9m um poema em homenagem \u00e0 equipe, perdido desde ent\u00e3o. Segundo o atleta Vav\u00e1, foi o pr\u00f3prio escritor que tratou de tudo \u2013 desde as reuni\u00f5es at\u00e9 a negocia\u00e7\u00e3o para conseguir, do Governo brasileiro, os bilhetes para o retorno a Belo Horizonte. Na despedida, a Embaixada ofereceu uma recep\u00e7\u00e3o em homenagem ao escrete mineiro, com duas atra\u00e7\u00f5es: uma feijoada e uma cantora rec\u00e9m descoberta: Edith Piaf . O evento foi amplamente noticiado pela imprensa francesa. &nbsp; Com o Vaqueiro Mariano Retorna ao Brasil em 1951. No ano seguinte, faz uma excurs\u00e3o ao Mato Grosso. O resultado \u00e9 uma reportagem po\u00e9tica: Com o vaqueiro Mariano, publicada no Correio da Manh\u00e3. O narrador, que se mostra apenas pela voz, relata os dias em que acompanha o Vaqueiro Mariano na sua labuta di\u00e1ria com o gado no pantanal mato-grossense. Ele narra as dificuldades que se apresentam durante a viagem: o desgarrar das vacas bravas, dos bois mansos que se embravecem de uma hora para outra. &nbsp; Excurs\u00e3o de 1952 Aos 44 anos, em Maio de 1952, trocou o terno e a gravata borboleta pela jaqueta e o chap\u00e9u de couro, viajando em busca de inspira\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. J\u00e1 estava acostumado com as andan\u00e7as pelo interior mineiro, mas desta vez acompanharia um grupo de tropeiros da fazenda Cirga, propriedade do seu primo Chico Moreira em Tr\u00eas Marias, at\u00e9 a fazenda S\u00e3o Francisco, em Ara\u00e7a\u00ed, passando por sua terra natal Cordisburgo, num percurso de dez dias. A comitiva levaria 300 cabe\u00e7as de boi por 240 quil\u00f4metros de trilha, atravessando pastos, beiras de estradas, casinhas de pau a pique, buritis e discretos cursos d\u00b4\u00e1gua. \u201cCreio que ser\u00e1 uma excurs\u00e3o interessante e proveitosa,&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-16","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-biografias"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v26.3 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Biografia de Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa - Drops por Lucas Gustavo<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Biografia completa do escritor Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa, abordando todas as fases da vida, acontecimentos, obras liter\u00e1rias e viv\u00eancias.\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/lucasgustavo.com.br\/drops\/blog\/biografias\/joao-guimaraes-rosa\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Biografia de Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa - 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